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ANTÓNIO COSTA
Nasceu António Costa nasceu em 1961, em Lisboa, no seio de uma família antifascista e democrata, pelo que os valores da democracia e da liberdade sempre lhe foram “simples”, nas suas palavras, no sentido de naturais. Foi em 1975, em pleno PREC e na sequência da ocupação do jornal República, que se fez o “clique” e começou a participar em todas as ações do PS. Distribuía panfletos na rua até porque nesse ano “tinha muito tempo livre para andar a ver a revolução”. Foi no ano seguinte, no decorrer da campanha eleitoral para as primeiras eleições para a Assembleia da República, que decidiu “preencher a ficha” e receber um cartão da JS. Desde então participou sempre ativamente na vida do partido, tendo sido quase tudo no PS: deputado, autarca, parlamentar europeu, Secretário de Estado, Ministro, Secretário-Geral do PS e Primeiro-Ministro. É licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa e pós-graduado em Estudos Europeus pela Universidade Católica Portuguesa. 

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“EM TODOS OS MOMENTOS DECISIVOS,
​A CONTRIBUIÇÃO DO PS FOI SEMPRE DETERMINANTE”

António Costa

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Porquê o Partido Socialista?

Foi uma escolha relativamente fácil porque eu nasci numa família antifascista, democrata, e até o 25 de Abril digamos que a vida era simples e clara: de um lado estavam os maus, de um lado estavam os bons, uns defendiam a ditadura, outros defendiam a liberdade, isto era tudo claro. Quando o 25 de Abril aconteceu, eu tinha 12 anos, era para mim esta divisão, que era uma divisão simples. O processo revolucionário foi muito acidentado e introduziu uma perturbação grande, em que de repente ficou claro que entre aqueles que se tinham batido contra a ditadura, nem todos tinham a mesma visão do que era a democracia e do que era a liberdade. Quando em maio de 1975 houve a ocupação do jornal República, para mim fez-se um clique e nessa altura fiz a minha opção. A FAUL [Federação da Área Urbana de Lisboa] do PS nessa altura ainda não era em São Pedro de Alcântara, era uns prédios abaixo do [jornal] República e a partir daí comecei a frequentar o PS. Foi mesmo a questão da liberdade e da democracia que fez a minha opção pelo PS e aquilo que já me tinha afastado da direita e relativamente à esquerda era a preocupação pela igualdade, pela justiça social e, portanto, a clarificação que a minha geração viveu naqueles anos 70 foi mesmo essa, sobre a importância da liberdade e da democracia.
 
Conte-nos como foi a sua adesão ao PS. Quando e em que circunstâncias?

O caso República foi em 75 e a partir daí comecei um namoro longo com o PS. Passei a ir a todas as manifestações do PS, a participar em tudo do PS. Esse foi um ano em que a minha escola, que funcionava no Conservatório, foi expulsa do Conservatório, os professores sanearem a diretora, as aulas começaram em fevereiro e eu decidi chumbar esse ano e, portanto, tinha muito tempo livre para andar a ver a revolução. Passava pela sede do PS para ver se havia papeis para distribuir, na altura distribuíam-se papeis na rua, havia sempre. Finalmente, em abril de 76, na campanha eleitoral de 76, fui à antiga secção [do JS] no Bairro Alto, preenchi a ficha e pronto, inscrevi-me na JS.
 
Na sua opinião, qual foi o contributo mais importante do PS para a democracia portuguesa?

Eu acho que em todos os momentos decisivos, o PS deu um contributo decisivo para a democracia. Deu ainda antes do 25 de Abril. Acho que em 74 e 75 foi absolutamente decisivo para que a democracia se pudesse consolidar. Depois na construção daquilo que foi o regime democrático, desde o poder local democrático, das autonomias regionais, da independência do sistema de justiça, em todas elas foi sempre o PS que deu a sua marca fundamental. E depois, mais recentemente, tudo aquilo que foram novos progressos e novos avanços em matéria de igualdade e direitos cívicos foi sempre com o PS que se foi avançando, desde a grande reforma do Código Civil que Almeida Santos fez em 1977, até à legislação mais recente sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo, todos esses avanços foram sempre com marcas do Partido Socialista. Diria que em todos os momentos decisivos, a contribuição do PS foi sempre determinante.

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“Como é que nós garantimos que esta geração, que designamos habitualmente como a mais qualificada de sempre, se torna também a mais realizada de sempre em Portugal. Esse é o grande desafio que a nossa sociedade hoje tem”. 

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Quais foram os acontecimentos/momentos políticos para si mais marcantes na história do PS?

Foram tantos… tem sido tão intenso! Acho que esse momento em que me inscrevi no PS foi particularmente importante. A transição do JS para o PS foi também um momento importante. Em 1993, quando fui candidato à Câmara de Loures, foi um momento muito marcante, foi a primeira vez que fui candidato por mim próprio, liderando uma lista, depois perdi, mas não deixou de ser marcante. E a partir daí tem sido uma sucessão mais ou menos contínua de diversas funções e atividades, na Assembleia da República, no Parlamento Europeu, em sucessivos governos, como Secretário de Estado, como Ministro, como Primeiro-Ministro. Todos esses momentos têm sido obviamente muito marcantes. Talvez o momento das eleições primárias, que foi um momento particularmente interessante, foi um desafio que o António José Seguro organizou, muito original, com uma mobilização extraordinária de pessoas e para além do resultado ter sido bom, foi um momento muito forte de mobilização e de abertura do PS não só aos seus militantes, como a muitos dos seus simpatizantes.

Do ponto de vista do partido, acho que há um primeiro momento que tem a ver com a a defesa da democracia em 75, depois da construção da democracia em 76, 77 e 78. Depois o momento da integração Europeia. E a partir dos governos de António Guterres, diria que claramente o reforço do Estado do Estado social, desde o Rendimento Social de Inserção, ao desenvolvimento do pré-escolar, a aposta do conhecimento como grande motor do nosso desenvolvimento, as energias renováveis no tempo do governo Sócrates e, digamos, a continuação e a síntese disto que temos feito nestes últimos oito anos.
 
Quem foram para si as maiores referências ou as referências fundamentais do PS, que mais o influenciaram ou inspiraram?

Foram tantas… desde o Alberto Arons [de Carvalho] que foi quem me desafiou entrar para a JS, o José Leitão que foi muito importante para a formação política de toda a minha geração, que tinha uma visão não estatista, não burocrática, eu diria mais social-democrata do socialismo. O António Guterres, com quem trabalhei com grande proximidade e Jorge Sampaio também. Para além de figuras que obviamente foram referências de todos nós, como o Mário Soares ou Manuel Alegre, que foram figuras muito importantes. 

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“Há um conjunto de bandeiras da social-democracia que deixaram de ser distintivas porque passaram a ser aceites por todos.”

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Quais as questões mais desafiantes que se colocam ao presente e ao futuro do PS?

São as questões que se colocam hoje à sociedade portuguesa, muitas têm a ver com os grandes desafios globais que temos. Fazer frente às alterações climáticas, assegurar a transição digital, continuar a combater as desigualdades, enfrentar este desafio demográfico. Acho que especificamente, e como o grande desafio da nossa sociedade hoje em dia, é como é que nós garantimos que esta geração, que designamos habitualmente como a mais qualificada de sempre, se torna também a mais realizada de sempre em Portugal. Esse é o grande desafio que a nossa sociedade hoje tem, porque nós hoje temos a entrar em força no mercado de trabalho toda a geração que é fruto da paixão pela educação de António Guterres, fruto do investimento nas políticas em ciência feitas pelo Mariano Gago e a qualificação da nossa população avançou muito mais depressa do que a qualificação da nossa economia e aqui há um certo círculo em que a economia também só se qualifica com estes recursos humanos. Mas a capacidade que a economia tem de reter este talento e com este talento poder crescer mais e melhor é mesmo um grande desafio que nós temos neste momento. Acho que, do ponto de vista societário, é mesmo o maior desafio que nós temos pela frente. 
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“Perante os desafios que temos pela frente, o socialismo democrático ou social-democracia, como queiramos chamar, são mais necessários do que nunca.”

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​O socialismo e a social-democracia são história ou resposta para o futuro?

Eu acho que é uma resposta para o presente e para o futuro. Aquilo que deu causa e que levou o socialismo democrático e a social-democracia a nascerem foi a necessidade de preservar a democracia, a liberdade e promover a igualdade. E as ameaças à democracia e à liberdade e as novas formas de igualdade que se vão colocando, há sempre novos desafios que se colocam. E neste momento, por exemplo, em que é fundamental para enfrentarmos as alterações climáticas, fazermos um grande investimento na transição energética, mais do que nunca é fundamental ter uma estratégia social-democrata para essa transição, porque nós temos que investir na capacitação das pessoas para o poderem fazer, nós temos que assegurar que nesta transição ninguém fica para trás. Porque se nós vamos encerrar centrais a carvão, temos que proteger as pessoas que trabalham na centrais a carvão e temos que assegurar que há novas oportunidades de emprego e realização pessoal para as pessoas que perdem essas atividades e vão ter outras. A transformação que vamos ter na indústria automóvel vai ser absolutamente brutal. As viaturas elétricas têm menos peças do que as viaturas de conversão tradicional, embora toda a indústria de produção de componentes vai sofrer uma grande alteração, mas também todos os serviços de manutenção automóvel vão ter uma enorme transformação. Ora, nós não podemos deixar de fazer esta transição, mas, por um lado, temos de criar oportunidades para que todos possam participar, por outro lado, garantir que ninguém é deixado por conta nestes momentos de transição. Ninguém melhor do que a social-democracia está em condições de o fazer. O mesmo relativamente à transição digital. Tal como esforço e o grande investimento que foi feito na educação para todos, para vencermos o analfabetismo, para que todos tivessem acesso ao conhecimento, foi uma batalha fundamental para a igualdade de oportunidades e garantir a igualdade de oportunidades no futuro significa também a aquisição de competências digitais. Uma série de atividades que hoje são os seres humanos a realizar, vão deixar de ser realizadas pelos seres humanos, isso pode ser uma tragédia ou pode ser uma oportunidade de todos termos mais tempo para a nossa própria vida e podermos beneficiar melhor dessas ferramentas. A história diz-nos que todas as grandes transformações tecnológicas geraram sempre mais empregos do que aqueles empregos que foram destruídos, mas há também quem discuta se não chegámos a um limite a partir do qual essa capacidade de transformação deixa de existir. Ora, nós temos que garantir que isso existe e, mais uma vez, aí é preciso criar oportunidades e também proteção, e pleno aproveitamento das oportunidades é também assegurar que ninguém é deixado por conta neste processo de transformação. Portanto, eu diria que mais do que nunca, perante os desafios que temos pela frente, o socialismo democrático ou social-democracia, como queiramos chamar, são mais necessários do que nunca. Recentemente temos até constatado que tem havido alguma expansão desses valores. Há um conjunto de bandeiras da social-democracia que deixaram de ser distintivas porque passaram a ser aceites por todos. Hoje ninguém contesta o direito à greve. Hoje ninguém contesta o direito a férias pagas, hoje ninguém contesta a existência de horários de trabalho. Mas estes foram todos ganhos civilizacionais que foi a social-democracia que conquistou. Hoje, felizmente, são um adquirido social, ninguém os põe em causa. Mas olhando, por exemplo, para a Europa e vendo como é que a Europa reagiu perante a crise económica e financeira de 2009 a 2011, ou como reagiu agora perante a crise da Covid, ou perante a crise da inflação gerada pela guerra da Ucrânia, eu diria que a social-democracia ganhou muito espaço na Europa. E se tivéssemos repetido agora a mesma resposta liberal que foi dada em 2009 ou 2011, a tragédia teria sido imensa. E a razão pela qual hoje podemos sair melhores desta crise do que saímos da crise anterior teve precisamente a ver com ter sido seguida uma política social-democrata. Portanto, eu acho que isso é um sinal de que a social-democracia está viva, forte e mesmo aqueles que julgam que não são social-democratas ou que não gostam de ser social-democratas, percebem que são mesmo as ferramentas da social-democracia as que são necessárias para gerir a sociedade.
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António Costa com António Guterres, no final da década de 1990.
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Com Mário Soares na sede nacional, em abril de 2015, na celebração dos 40 anos da Assembleia Constituinte.
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António Costa na noite de 28 de setembro de 2014, após o anúncio da vitória nas inéditas eleições primárias do PS, que o levaram à liderança do partido.
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Com Jorge Sampaio, por ocasião do seu 80º aniversário, nos jardins da sede nacional, no Largo do Rato.
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Fotos cedidas pela Fundação Mário Soares
​ e Maria Barroso.
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​número 04 // novembro 2023
no. 04 // novembro 2023
Entrevista
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FUNDAÇÃO RES PUBLICA
A Fundação Res Publica é uma instituição dedicada ao pensamento político e às políticas públicas. À luz dos seus estatutos, inspira-se nos valores e princípios da liberdade, da igualdade, da justiça, da fraternidade, da dignidade e dos direitos humanos.


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