REVISTA RES PUBLICA
  • atual
  • Arquivo
  • Estatuto
  • Contactos
​__________________________________​

JAMILA MADEIRA
Nasceu em Loulé, em 1975, numa família ligada à política. O confronto entre Mário Soares e Freitas do Amaral, nas eleições presidenciais de 1986, ajudou a clarificar a sua posição ideológica à esquerda, mas foi na contestação dos estudantes contra a Prova Geral de Acesso no início dos anos 90 que deu nas vistas. Foi eleita Comissária Nacional da Juventude Socialista em 1994 e em 2000 foi escolhida para liderar a Juventude Socialista. Pelo caminho, licenciou-se em Economia e fez um mestrado em Finanças. Chegou pela primeira vez ao hemiciclo da Assembleia da República em 1989, tendo ocupado o lugar de deputada nas VIII, IX e XI Legislaturas. Em 2004 foi eleita deputada ao Parlamento Europeu. Foi Secretária de Estado Adjunta e da Saúde no segundo mandato de António Costa.​

________________________________

“QUANDO TIVE DE ESCOLHER, ACABOU POR SER INEVITÁVEL A ESCOLHA NO PS”
​
Jamila Madeira

Picture
Porquê o PS?

Quando eu era muito nova e tinha também em casa alguma movida política, para não dizer bastante movida política, essa curiosidade surgiu-me muito cedo. Mas para além dessa curiosidade, posso dizer que também tive alguns instintos que me conduziram depois para o Partido Socialista. Isso foi muito claro. Por exemplo, recordo-me, e digo isto com um sorriso, na escola primária tinha uma professora com um perfil de antigamente e escrevi-lhe uma carta anónima a dizer que na sala [de aula] havia leis funil, largas para uns, estreitas para outros. Eu nem era a pessoa que mais me queixava, mas achava que [as regras] não eram iguais para todos. Portanto, a lógica de justiça social, de igualdade de direitos, de solidariedade, estava e esteve sempre muito enraizada nos meus princípios. O ser de esquerda e o ideologicamente à esquerda foi absolutamente claro para mim desde muito tenra idade.
​
Depois tive o privilégio, acho que podemos dizer assim, de ter o grande confronto Soares/Freitas nas presidenciais de 1986 e que, naturalmente, nos permitiu clarificar ideologicamente, de uma maneira muito marcada, o ser à esquerda ou o ser à direita. Naturalmente que no ser à esquerda teria, na minha visão, que ter a democraticidade, a liberdade, a solidariedade muito enraizadas e essas opções só estavam – e só estão, apesar da oferta hoje teoricamente ser maior - associadas ao Partido Socialista. E portanto, para mim, houve um conjunto de coisas, de vivências e de crescimento que naturalmente ajudaram a essas opções, mas depois as opções foram absolutamente claras ao longo do caminho e só o PS oferece ideologicamente esta marca sendo, como eu costumo dizer, o partido mais plural de todos. É um partido em que sofremos muito e batalhámos muito para construir esta grande posição, que depois orgulhosamente também marca muitos dos destinos do nosso país.
* * *

“O grande confronto Soares/Freitas nas Presidenciais de 1986 permitiu clarificar ideologicamente o ser à esquerda ou o ser à direita”.

​* * *
Conte-nos como foi a sua adesão ao PS. Quando e em que circunstâncias?
​

A resposta à primeira pergunta acaba por ser também a resposta a esta pergunta. Quando esta vivência Soares/Freitas aconteceu eu tinha dez anos, portanto foi muito precoce. Mas o que se tornou evidente foi que quando tive de escolher, acabou por ser inevitável a escolha no PS. Antes fui membro da JS, mas ainda antes de poder ser membro da JS, aos 14 anos já me estavam a convidar para coisas. Houve um momento, que ainda não me afetava, que foi a Prova Geral de Acesso, mas que considerei de uma grande injustiça, não por aquilo que representava per si, mas pela discriminação entre quem estava dentro de um contexto familiar que lhe permitia conhecer um conjunto de coisas e aqueles que só estavam a viver aquilo que a escola tinha providenciado. E nós estávamos a avaliar o acesso ao ensino superior por critérios que a escola não tinha providenciado, portanto, a discriminar, a não ser promotores de igualdade, a cortar o elevador social, se pudermos dizer assim. Envolvi-me muito, promovi muitas manifestações, cortei estradas [risos]. Foi um momento vivido intensamente em nome das liberdades e dos direitos numa sociedade justa. A educação pública é algo importante no nosso Estado democrático e depois estarmos a discriminar avaliando coisas que não estávamos a providenciar era naturalmente um elemento de enorme discriminação e de injustiça e que não podia de maneira nenhuma deixar passar. Isso foi uma das grandes marcas que levou a que nessa altura me convidassem para participar na JS, eu ainda não tinha idade para isso, mas depois naturalmente acabou por acontecer. 
Picture
Na sua opinião, qual foi o contributo mais importante do PS para a democracia portuguesa?

Sem ser o 25 de Abril?! Nós estamos precisamente a viver os 50 anos do Partido Socialista antes dos 50 anos do 25 de Abril porque para além de tudo o que antecedeu a própria fundação na clandestinidade do Partido Socialista, faz com que o 25 de Abril seja talvez o maior momento. Mas se formos ver num momento pós-democracia, não tenho dúvidas de que adesão imediata à Comunidade Económica Europeia, o perceber que tínhamos que levar connosco os nossos irmãos espanhóis… nós fomos não só responsáveis pela nossa adesão à União Europeia, mas também responsáveis, de alguma maneira, pelo acelerar da democratização do Estado espanhol, e quem conhece alguns dos detalhes da negociação que Mário Soares levou às instituições europeias à época, tem a noção de que se Espanha não estivesse em condições de aderir nós dificilmente aderiríamos e, portanto, com a plataforma de contactos internacionais que Mário Soares tinha acabámos por promover, ajudar a que se acelerasse um bocadinho o processo democrático também em Espanha.

Depois houve muitas outras: a adesão ao euro, o Tratado de Lisboa, todas elas passaram pela mão do PS e eu acho que isso são marcas muito importantes. Mas como eu dizia, o PS é o partido de charneira, é o partido das grandes marcas da sociedade portuguesa e, portanto, há muitas mais. Quando há pouco falava da educação pública e do SNS, são dois elementos que reforçam o elevador social, que reforçam a democratização da nossa sociedade, a solidariedade entre todos, mas podemos ir mais longe: a própria Segurança Social, o reforço do Estado social por esses instrumentos, quando o nosso Estado social intervém nós temos o reequilibrar da nossa sociedade. Claro que preferiríamos que a nossa sociedade funcionasse sem Estado social e que fosse tudo instantâneo e todos tivéssemos acesso a um bem-estar natural, mas o que é certo é que estes instrumentos existem precisamente para a função redistributiva, para reajustar, e porque sabemos, e já sabemos desde o início da construção do nosso Estado democrático, que eles eram essenciais e que sem eles, sem o Rendimento Mínimo Garantido, sem prestações sociais, sem abono de família, sem pensões, estaríamos sempre a comparar uma sociedade de quem tem oportunidades com uma de quem não tem oportunidades. Quem por alguma razão não teve oportunidades, não tem necessariamente a ver com demérito seu, tem a ver com a conjuntura da sua vida e é preciso criar condições para essas oportunidades surgirem e todos temos responsabilidades, não são responsabilidades individuais, são responsabilidades coletivas, todos temos responsabilidades pelo outro. É isso que o PS sempre marcou na sociedade portuguesa e acho que continua a marcar.
​
Mas eu diria que a democracia é o que faz com que tudo isto seja um grande castelo forte e coeso que pode ter muitos abalos, mas está cá sempre para nos proteger. 
* * *

“Com a eleição de António Guterres em 1995 [dá-se] o robustecimento do Estado social, com uma marca muito importante que foi a criação do Rendimento Mínimo Garantido, que levou a alterar completamente os paradigmas de exclusão social na nossa sociedade”.

​
* * *
Quais foram os acontecimentos / momentos políticos para si mais marcantes na história do PS?
​

A própria eleição de Mário Soares como Presidente da República terá sido um grande momento, apesar de podermos dizer que nessa altura Mário Soares entregou o seu cartão de militante, tornou-se um cidadão do mundo. O coração não faz isso, mas o ato político foi de distanciamento partidário.

Vivido por mim, e marcadamente relevante para tudo aquilo que depois se tornou o nosso país, a eleição em 1995 de António Guterres depois das maiorias absolutas de Cavaco Silva. Foi um mudar de paradigma. Eu tinha crescido e tinha-me formado num contexto de uma sociedade muito individualista, em que a direita promovia uma imagem em que estávamos numa União Europeia que trazia muitas riquezas ao nosso país, mas que dizia que o indivíduo, a pessoa sozinha com o seu curso, o seu computador, não precisava de mais ninguém, não precisava de Estado social, não precisava de Serviço Nacional de Saúde, porque per si seria autónomo, teria o seu ordenado e não precisaria do outro. Era uma sociedade muito mais egoística e essa mudança de paradigma acontece com a eleição de António Guterres em 1995. [Dá-se] o robustecimento do Estado social, com uma marca muito importante que foi a criação do Rendimento Mínimo Garantido, que levou a alterar completamente os paradigmas de exclusão social na nossa sociedade, com o reforço da escola pública, a paixão da educação e todo o lema da campanha “Com a razão e com o coração” que foi feita ao lado dos portugueses. Vivido por mim, talvez tenha sido o grande momento político.

Outro momento mais emotivo e igualmente importante, embora numa outra fase da minha vida, foi quando tivemos a campanha europeia em que, lamentavelmente, dias antes das eleições perdemos o nosso cabeça de lista, Sousa Franco. Espero nunca viver nada semelhante novamente, foi um momento de imensa intensidade, não só porque Sousa Franco era uma pessoa muito diferente da maioria dos militantes do PS em termos ideológicos, mas em termos sociais e de solidariedade era um dos nossos. Foi não só uma campanha, mas uma intensidade de momentos que depois levou um grande resultado eleitoral, lamentavelmente sem ele.
 
Quem foram/são para si as maiores referências ou as referências fundamentais do PS, que mais a influenciaram ou inspiraram?

[Referindo-me a figuras] nacionais, tive o gosto, o prazer, de conhecer Mário Soares pessoalmente, que era um homem mais do que marcante, que nos envolvia. Da mesma forma que disse que foi em 1986, pelo confronto Soares/Freitas, que para mim ficou claro que [a minha opção] era a esquerda e a esquerda democrática, portanto, teria de ser do PS, aquando das manifestações contra a guerra do Iraque eu tinha duas grandes figuras ao meu lado, Soares e Freitas, e disse-lhes que era um grande momento para mim, ainda que um bocado estranho… eles fartaram-se de rir. Tinha sido no confronto de ambos que eu tinha percebido que o caminho era por ali e depois estavam os dois ali… [risos]. Foi um momento de democratas, de respeito pela ordem internacional, de respeito pelo outro. Apesar de em determinado momento eles serem muito diferentes, ambos eram enormes promotores do respeito pelo outro e do direito e das regras, que tanto se discute nos dias de hoje. São duas figuras que me marcaram, claramente Mário Soares mais do que Freitas do Amaral, mas é muito importante perceber porque ambos tinham um contexto, um contexto nacional e um contexto internacional.
* * *
​
“O partido charneira do liberalismo em Portugal é o PS. Fomos nós que, em termos de valores, de princípios, de respeito pelas opções do outro, colocamos isso na Constituição, colocámos isso nos direitos, colocámos isso nas leis.”

​
* * *
Também tive o gosto de conhecer pessoalmente Nelson Mandela, e julgo que foi uma figura marcante da nossa história contemporânea, por tudo aquilo que ele sofreu e por tudo aquilo que ele representou. Conseguiu ir além do seu próprio eu, “isto não sou eu, somos nós”.
 
Quais as questões mais desafiantes que se colocam ao presente e ao futuro do PS?

Temos grandes desafios. Nós construímos um modelo de sociedade muito complexo, que nem sempre é facilmente compreensível para o outro e que precisa de ser permanentemente afinado, tal como a democracia. Nós padecemos de um enorme erro e eu sempre tive essa perceção: fizemos o 25 de Abril e [pensámos que] a democracia faz o resto, educa para a cidadania, educa para a democracia, educa para a liberdade. E só muito tarde, eu diria mesmo só com o governo de António Guterres, é que percebemos e começamos a encetar um caminho de educação para a cidadania, reforço da democracia. Educar para todos aqueles que nasceram como tendo isto que temos hoje como uma garantia e achando que isto nunca vai voltar atrás. E é preciso mais.

Hoje ouvimos dizer muitas vezes “eu sou liberal”. E o que é ser liberal? O que é ser liberal num mundo sem um Estado social robusto, se se achar que o cheque ensino ou o cheque de saúde vai conseguir fornecer os medicamentos mais inovadores que são fornecidos no Serviço Nacional de Saúde? Nós temos não só os [medicamentos] mais caros como os mais inovadores ao dispor de todos os cidadãos e isso não acontece em economias robustas como a Alemanha, o Canadá, que também têm sistemas de saúde robustos e têm uma pujança económica muito maior. Mas o nosso Serviço Nacional de Saúde, o nosso Estado social providencia isso, que nunca falha, no sentido de quando verdadeiramente é necessário nós termos a resposta, ela está autorizada, está no menu de opções que podemos dar aos cidadãos que carecem destas opções. Acho que enquanto democratas temos de explicar isso. Acho que esse é um grande desafio do PS porque é muito fácil às novas gerações dizerem “eu sou liberal”. O partido charneira do liberalismo em Portugal é o PS. Fomos nós que em termos de valores, de princípios, de respeito pelas opções do outro, colocamos isso na Constituição, colocámos isso nos direitos, colocámos isso nas leis. Podemos falar da lei da paridade ou até das alterações que fizemos à Constituição para respeito das opções do outro… Isso é o liberalismo que nós defendemos, mas com o princípio da justiça social e não do igualitarismo. É preciso criar igualdade, mas com equidade, para criar respeito pelo outro, reconhecendo que o outro tem uma vicissitude de vida diferente. Portanto, temos de criar os instrumentos certos para conseguir calibrar com aqueles que têm mais oportunidades em casa, não só porque têm pais com mais formação ou com mais salário ou até com teto, ou até [calibrar] a diferença entre os que estão na urbe e os que estão no meio rural. Eu julgo que essa é uma mensagem para o futuro muito importante.

Claro que depois temos os desafios económicos. Portugal está num ponto de viragem. Isto é muito curioso: somos o país que mais cresce em termos europeus no momento em que temos uma guerra em curso, um desequilíbrio da ordem mundial, mas em que Portugal se afirma na diferença, promovendo desenvolvimento, ou seja, passando [de um grupo] de países de determinado perfil económico para outro perfil económico. Isso terá dores de crescimento, mas é essencial que não se volte atrás, que este modelo de desenvolvimento leve todos, leve a sociedade como um todo. Se esse modelo de desenvolvimento nos permitir ajustar as nossas contas, desenhar um novo paradigma económico, um novo modelo de maior inovação, com mais a diferenciação, entraremos num novo ciclo. Se tivermos a tentação de travar, se tivermos a tentação de voltar, por exemplo, aos salários baixos, podemos deitar tudo a perder. Portanto, temos de continuar este caminho e esta é uma mensagem que o PS como partido charneira tem de continuar a promover, que é desenhar o equilíbrio nesta complexidade deste sistema, em como construir o modelo económico sem deixar ninguém para trás.
 
O socialismo e a social-democracia são história ou resposta para o futuro?
​

Por tudo o que disse anteriormente, acho que não é de todo história e que só mesmo a social-democracia ou socialismo democrático podem fazer um mundo melhor. E para além disso, basta olhar para as organizações internacionais onde a social-democracia está envolvida. A maior organização mundial de partidos irmãos do PS é a Internacional Socialista ou, em termos europeus, o Partido Socialista Europeu. E é muito simbólico que nos nossos 50 anos do Partido Socialista, mais de 50 partidos por todo o mundo tenham feito questão de estar presentes, porque nós somos o referencial. A nossa social-democracia, o nosso socialismo democrático é o referencial para muitos destes partidos e países que têm um nível de desenvolvimento democrático e da sua ideologia, apesar de irmã da nossa, muito diferente. Futuro, de certeza!
Picture
Picture
Jamila Madeira com António Guterres e António Almeida Santos, à data Secretário-Geral e Presidente do PS, respetivamente, no XII Congresso do PS, no Parque das Nações em 2001.
No Hotel Altis, sede de campanha do PS, na noite das eleições europeias de 13 de junho de 2004, quando o PS ganhou com maioria absoluta. António Costa substituiu Sousa Franco como cabeça de lista ao Parlamento Europeu, após a morte de Sousa Franco durante uma ação de campanha em Matosinhos.

Fotos cedidas pela Fundação Mário Soares
​e Maria Barroso.
​download PDF
​número 04 // novembro 2023
no. 04 // novembro 2023
Entrevista
download PDF
FUNDAÇÃO RES PUBLICA
A Fundação Res Publica é uma instituição dedicada ao pensamento político e às políticas públicas. À luz dos seus estatutos, inspira-se nos valores e princípios da liberdade, da igualdade, da justiça, da fraternidade, da dignidade e dos direitos humanos.


​
​
fundacaorespublica.pt






Picture
Proudly powered by Weebly
  • atual
  • Arquivo
  • Estatuto
  • Contactos