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MIGUEL COSTA MATOS
É o atual líder da Juventude Socialista. Nasceu em 1994 no distrito de Lisboa e é economista, formado na Universidade de Warwick, no Reino Unido, e na Nova SBE. Trabalhou como Técnico Superior Especialista no Ministério das Finanças e foi adjunto económico do Gabinete do Primeiro-Ministro entre 2017 e 2019. A primeira vez que visitou a Assembleia da República foi no dia 10 de novembro de 2015, quando os partidos da esquerda apoiaram a moção de rejeição apresentada pelo PS que levou à queda do governo de Passos Coelho. Filho da “geringonça”, que elege como um dos acontecimentos marcantes da história do PS, viria a assumir o lugar deputado em 2019, que mantém atualmente. 

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“PERANTE ESTE MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO,
A IDEIA DO SOCIALISMO É MAIS ATUAL
​DO QUE NUNCA”

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Miguel Costa Matos

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Porquê o Partido Socialista?

Todos os partidos hoje em dia defendem a liberdade. Praticamente todos defendem a igualdade de oportunidades. Muitos defendem a democracia. A questão está em como atingir estes objetivos fundacionais de uma democracia liberal. E o Partido Socialista, mais do que nenhum outro, defende que se consigam estes objetivos através do Estado, através da cooperação entre as pessoas. Isso para mim foi o motivo da escolha do Partido Socialista.

Tenho uma família com uma tradição de médicos, uma família que muito beneficiou da escola pública e que apesar de tudo me pôde proporcionar uma vida de algum conforto. Mas é essa noção de que essa oportunidade devia ser distribuída e que só as instituições do Estado o podem fazer, que me conduziu, em primeiro lugar, ao Partido Socialista. Claro que podemos dizer que outros partidos defendem o Estado social, mas vamos verificar e quando chega a 'hora H' ou cortam o Estado social ou o privatizam. Subordinam-no a outro tipo de interesses, não o expandem, não o desenvolvem, não o articulam numa base de confiança com as pessoas. E isso foi, como acho que para muitos, um motivo de consciência do coração para aderir ao Partido Socialista do ponto de vista ideológico. Mas do ponto de vista de cabeça, como economista, não poderia deixar de encarar como outros partidos têm uma visão de aceitar a economia como ela está, o mercado como ele é, aceitar despedimentos, desigualdades, aceitar que o nosso país não pode subir salários porque as empresas não aguentam. A visão do Partido Socialista sempre foi outra. Uma visão de desenvolvimento, uma visão de que a competitividade é dinâmica e por isso pode-se obter e obtém-se justamente através do investimento do Estado na inovação, na internacionalização, no alargamento ao interior da base de desenvolvimento económico do país. E é essa dimensão interventiva, em que os modos de intervenção variaram ao longo do tempo, mas em que nunca o Estado se demite da sua função de qualificar a economia, os cidadãos, no fundo as condições materiais da nossa existência. Essa é uma condição que para mim é indispensável para ideologicamente aderir, não só de coração, mas de cabeça, ao Partido Socialista.
 
Conte-nos como foi a sua adesão ao PS. Quando e em que circunstâncias?
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Esse caminho para mim começou em meados 2007, teria os meus 13 anos, e de ver as reformas que o país empreendia na altura, não só a legalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, como também o inglês no primeiro ciclo, o programa e-escolas com a distribuição de computadores, o choque tecnológico como um todo, a escola a tempo inteiro, a aposta nas energias renováveis, mas também o desenvolvimento com o aumento do salário mínimo, o desenvolvimento de várias medidas de política social naquela altura, como o Complemento Solidário para Idosos, que me cativaram. Fizeram-me perceber que a política faz a diferença na vida das pessoas. E para uma família como a minha, que estava habituada à intervenção social do ponto de vista profissional e do ponto de vista cívico, mas nunca do ponto de vista político ou partidário, para mim isso foi um despertar que não tinha paralelo na minha família e obrigou-me a pesquisar declarações de princípio, programas [eleitorais], ler mais notícias e aí percebi que a minha casa era mesmo esta, era a casa com que eu me identificava politicamente e, portanto, foi a casa em que me inscrevi. No dia 29 de maio de 2008 a minha mãe levou-me até Lisboa e fui entregar a minha ficha na sede da Juventude do Socialista e desde então nunca olhei para trás. Foi um processo que se consolidou no tempo, obviamente com os seus desencantos ao longo de episódios, mas que se consolidou na crise de 2008, no fracasso dos bancos, que demonstrou a importância de os Estados poderem intervir em períodos de crise económica e para debelar o desemprego e as situações de carência; em 2011 e na crise austeritária seguinte em que também deu para perceber que a rutura com o Estado social era profundamente injusta. Portanto, tudo isso foram momentos formativos de entrincheiramento naquilo que são as nossas fileiras ideológicas e programáticas.

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“A primeira vez que visitei a Assembleia da República foi no dia em que nós mandámos abaixo o governo de Passos Coelho. E foi um alívio sentirmos que não íamos ter de passar por aquele sofrimento outra vez”.

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Na sua opinião, qual foi o contributo mais importante do PS para a democracia portuguesa?

A própria democracia, o evitarmos que a nossa jovem democracia caísse numa ditadura de sinal igual ou sinal contrário. Mas diria que o contributo fundamental foi o desenvolvimento do Estado social, em que todas as instituições praticamente se marcam pelo Partido Socialista ter sido o seu pai e as ter desenvolvido. Acho que isso é a marca identitária do Partido Socialista, é ter sido o partido que conseguiu pôr os jovens no ensino superior, combater o abandono escolar precoce, [lançar] medidas de combate à pobreza, democratizar a educação, criar o Serviço Nacional de Saúde… os investimentos que foram feitos nesse sentido acho que foram muito significativos e não podem ser descurados, porque democracia política sem democracia social é uma democracia de frágil liberdade, em que a liberdade é para quem mais tem e não é verdadeiramente para todos. E é essa ambição histórica a que o Partido Socialista se reconduz perpetuamente.
 
Quais foram os acontecimentos / momentos políticos para si mais marcantes na história do PS?

Penso que há vários, como o pedido de adesão à União Europeia, marcante! O período da carta do Grupo dos Nove, marcante para o que aí tivemos na construção da nossa democracia. Sem dúvida que houve momentos muito importantes, difíceis e alegres também, mas para mim o mais marcante foi novembro 2015, depois do mais vil o assalto ao Estado social, termos sido capazes de liderar um projeto de esquerda para recuperar a esperança do nosso país, para recuperar uma visão de futuro para o nosso país, recuperar o Estado social do nosso país e tudo o que isso nos trouxe, estes que vão ser desejavelmente onze anos de prosperidade, de mais igualdade, de mais sustentabilidade. Penso que como é um acontecimento recente é fácil desvalorizá-lo face a tantos outros, mas eu acho que não o podemos desvalorizar porque foi um momento de viragem em que o PS soube estar à altura da sua responsabilidade. E se não o tivéssemos feito, porventura hoje estaríamos como estão outros partidos socialistas, como o francês ou grego, órfãos do povo que queremos representar. Porque soubemos dizer que não e construir algo diferente, hoje o Partido Socialista continua a existir. 
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Vivi esses dias [da formação da “Gerigonça”] com uma grande emoção. A primeira vez que visitei a Assembleia da República foi no dia em que mandámos abaixo o governo de Passos Coelho. E foi um alívio sentirmos que não íamos ter de passar por aquele sofrimento outra vez… os cortes, os serviços públicos a definhar. E já na altura com os acordos feitos, sentir a enorme esperança desse momento, mas também a audácia. Foi um sonho lindo, hoje quase acabado, mas que representou um despontar de um tempo novo em que [demonstrámos]- e acho que para a minha geração isso é importante – que não somos um Partido Socialista sozinho, não somos um Partido Socialista autossuficiente, não somos um Partido Socialista cheio de si ou que se acha dono da razão. Somos um Partido Socialista charneira como defendia Mário Soares, aberto, dialogante, próximo da sociedade, humilde, que escuta e que também escuta aqueles que estão noutros partidos e esse foi, porventura, também o último legado que Mário Soares nos deixou em vida, o sonho da convergência à esquerda para salvar a democracia, para salvar o Estado social e cumprirmos esse desígnio dele foi também mais um elemento da beleza do que foi esse mês de novembro de 2015.
 
Quem foram/são para si as maiores referências ou as referências fundamentais do PS que mais o influenciaram ou inspirara?

Mário Soares com certeza, o nosso fundador, pela sua coragem, pela sua enorme inteligência. Mário Soares não era só aquele animal político, era um animal literário, era um historiador, um filósofo, um homem com uma capacidade de escrita invejável, com uma cultura, uma dimensão humana extraordinária, mas ao mesmo tempo um tipo patusco, com todas aquelas histórias que as pessoas contam do seu relacionamento com as pessoas, genuíno, tão genuíno… Acho que nos faz tanta falta isso hoje na política, políticos que mostrem ser seres humanos, porque somos todos seres humanos, mas às vezes achamos que para se ser político precisamos de esconder essa nossa dimensão de humanidade. 
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“Democracia política sem democracia social é uma democracia de frágil liberdade, em que a liberdade é para quem mais tem e não é verdadeiramente para todos.”

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A seguinte figura que eu diria que para a nossa geração é, sem dúvida, uma das maiores referências é Jorge Sampaio. Por uma maneira de estar serena, comprometida, convicta, diplomático. É curioso, não é? Aquele que porventura é visto como o maior dos esquerdistas dentro do Partido Socialista, ou seja, uma figura que nunca abdicou daquilo que eram os seus ideais, as suas convicções, era ao mesmo tempo dos mais pragmáticos e dos mais diplomáticos, dos mais serenos. Não se exaltava, não era fleumático. Era o tipo que chorava perante as desigualdades e eu que sou uma pessoa de lágrima fácil, revejo-me muito nessa capacidade de nos conseguirmos colocar na pele dos outros. O facto de ter sido capaz de liderar em algumas áreas fundamentais, por exemplo, da descriminalização das drogas, do ponto de vista de Timor, do ponto de vista da habitação, penso que ele revelou também aí uma enorme capacidade de pensamento estratégico. Por vezes, na espuma dos dias, falta-nos capacidade de planeamento, mas se formos ver a sua governação na Câmara de Lisboa ou do ponto de vista da Presidência [da República], ele tinha uma visão muito racional, muito preparada das coisas e isso é interessante porque nós podemos aproveitar essas qualidades para a nossa própria prática política. Sem dúvida que a dimensão dele como arquiteto dos diálogos à esquerda e sem dúvida a sua visão de um partido aberto a quem vem. O nosso partido não pode ser só daqueles que sempre cá estiveram, mas também tem que ser daqueles que, entretanto, fizeram cá a sua casa, que entretanto se juntaram a nós.

Como terceira figura para compor esta trilogia, António Costa, pelos motivos que já anunciei, por ter tido a coragem de liderar o partido e tomar essa decisão difícil, por ter conquistado estas três vitórias eleitorais. Na primeira não fomos o partido mais votado, mas conseguimos tirar a maioria à direita e conseguimos liderar o governo perante tantas dificuldades. 

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“Somos um Partido Socialista charneira como defendia Mário Soares, aberto, dialogante, próximo da sociedade, humilde, que escuta e que também escuta aqueles que estão noutros partidos.”

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Há obviamente figuras com muito futuro e que nos deixam esperança para o futuro do nosso partido porque os 50 anos [do PS] não podem ser um ponto de chegada, têm que ser um ponto de partida. E aí lançava uma referência para mim, o meu primeiro secretário-geral da Juventude Socialista, o Duarte Cordeiro, que além de ser supremamente inteligente, é um ser supremamente cordato, polido, que representa esta síntese entre a coragem de Mário Soares, a sensibilidade, serenidade e diplomacia de Jorge Sampaio e o pragmatismo convicto de António Costa que não se deixa de debelar. É com eles, com António Costa e com Duarte Cordeiro, com quem tive o privilégio de trabalhar, que espero que o partido continue a ter muito futuro e com quem nós possamos continuar a trabalhar.
 
Quais as questões mais desafiantes que se colocam ao presente e ao futuro do PS?
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Eu penso que o mais desafiante para o Partido Socialista no seu futuro tem a ver com uma trilogia, uma pirâmide de três Is: impacto, integridade e intervenção. Impacto na medida em que o Partido Socialista soube manter os seus eleitores porque soube transformar as suas vidas, melhorar os seus rendimentos, as suas condições de trabalho, e acho que nós temos de assegurar continuar a ter um ímpeto reformista e temos de olhar para as novas desigualdades, no clima, no digital, na saúde mental, responder-lhes, temos de conseguir ir onde ainda não fomos, porque já subimos muito o salário mínimo, mas os salários médios ainda não subiram o suficiente, temos de conseguir fazer com que os serviços públicos realmente sejam algo em que as pessoas se revêm, que sentem que têm benefícios, e não algo do qual se sentem alheados e afastados. Portanto, impacto é uma condição sine qua non, basilar, do futuro do Partido Socialista.

A integridade é importante porque infelizmente as pessoas têm motivos para estar descrentes da política. Já tiveram vários episódios, que não marcam estruturalmente aquilo que é o caráter de um partido, mas que abrem feridas na nossa credibilidade e na nossa autoridade. E nós temos de ser capazes de gerar uma noção de que estamos na política por valores e que fazemos política com integridade. 
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“Temos de ter a capacidade de perpetuamente nos atualizarmos, reinventarmo-nos, ao mesmo tempo que nos mantemos fiéis àqueles que são as os nossos princípios fundacionais.”

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E a terceira é a intervenção. Se queremos ser um partido com integridade e com impacto, muito disso depende de sabermos ouvir, de não sermos nem tecnocratas, nem populistas, de não sermos arrogantes, sabermos abrir aos outros, abrir a outros partidos, abrir aos movimentos sociais, sobretudo abrir aos nossos próprios militantes. Que falta faz ouvirmos os nossos militantes! Que sede eles têm de partilhar as suas ideias, os seus problemas, eles que dão a cara todos os dias pelo nosso partido de norte a sul, que ouvem os problemas, que sentem os problemas, e quantas vezes realmente ouvimos os contributos que eles têm para dar? Temos de reinventar o nosso partido para estruturalmente estarmos disponíveis para ouvir os nossos militantes, aqueles que perdem o seu tempo para dar à causa socialista, porque sem eles não se faz nada. O partido não pode obviamente ter apenas os votos dos militantes, se não perde eleições, mas sem os militantes seguramente não vai ter os votos das pessoas lá fora. Esta capacidade escutar a intervenção dos outros é absolutamente fundamental.
 
O socialismo e a social-democracia são história ou resposta para o futuro?
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António Arnaut dizia-nos, num famoso discurso que proferiu num evento da Juventude Socialista, que o socialismo é a ideia mais antiga, mas também a mais jovem do mundo. É bonito este paradoxo. É a ideia mais antiga, evocando Antero de Quental, porque o socialismo está sempre [do lado] da revolta contra a injustiça, [do lado] de um trabalhador que não recebe aquilo que ganha… A história do mundo é feita das revoltas dos trabalhadores e antes de haver o nome socialismo já existia cooperação entre trabalhadores, já existia luta, portanto, já existia socialismo. E é a ideia mais jovem do mundo porque é a ideia que se confronta contra a perpétua reinvenção do capitalismo e da sociedade com novas desigualdades, com maneiras de contornar aquelas que são as proteções sociais que nós deixamos. Ao contrário do que alguns diziam, não há uma margem inexorável rumo a algum futuro histórico e nós vemos que a apetência das pessoas por medidas de política redistributiva, políticas sociais, políticas públicas, por mais Estado ou menos Estado, vêm e vão. E por isso temos de ter a capacidade de perpetuamente nos atualizarmos, reinventarmo-nos, ao mesmo tempo que nos mantemos fieis àqueles que são os nossos princípios fundacionais, porque aquilo que se mantém constante é o nosso compromisso com a dignidade do Ser Humano, com a dignidade social. Filipe Gonzalez falava-nos disto na sua intervenção no jantar em que se que comemoraram os 50 anos do Partido Socialista, que perante todas as crises o mais importante é assegurar o valor mais intemporal que é o da dignidade do Ser Humano e justamente nos tempos que aí vêm, de uma globalização mais líquida – ou se calhar já não é líquida, é gasosa –, em que tudo está em todo o lado e ao mesmo tempo, em que os bens são imateriais e até são digitais, perante a robotização e a economia das plataformas que coloca a atomização total do trabalhador… tudo isto exige novas respostas sociais e tudo isto exige regressar àquela velha máxima que é a cooperação, a cooperação entre cada um de nós para podermos juntos ter a força de enfrentar uma lógica do capital, uma lógica que é muito maior que nós e que nos pretende reduzir e e sujeitar a aceitarmos piores salários, aceitarmos mais horas de trabalho, a aceitarmos a destruição do nosso planeta. A única maneira de nós fazermos face a isso é através da cooperação, através das políticas públicas, através do Estado social e por isso marchámos este ano no 25 de Abril sobre o mote “Liberdade é Estado social” porque a liberdade não pode ser só para aqueles que mais têm, tem de ser para todos. Portanto, perante este mundo em transformação, com novas desigualdades a surgirem, a ideia do socialismo é mais atual do que nunca e é ao mesmo tempo a ideia mais intemporal da dignidade humana e por isso é um futuro com história. 
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Miguel Costa Matos na manifestação do 25 de Abril, na Avenida da Liberdade, em 2021.
Miguel Costa Matos com Margarida Marques (ao centro) e Maria Begonha, ambas antigas líderes da Juventude Socialista.

Fotografia de José António Rodrigues/PS.
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​número 04 // novembro 2023
no. 04 // novembro 2023
Entrevista
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A Fundação Res Publica é uma instituição dedicada ao pensamento político e às políticas públicas. À luz dos seus estatutos, inspira-se nos valores e princípios da liberdade, da igualdade, da justiça, da fraternidade, da dignidade e dos direitos humanos.


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