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“PORTUGAL AMORDAÇADO (Excerto)
​
Mário Soares

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“Creio que o homem poderá libertar-se da miséria e do medo do futuro, sem sacrifício da liberdade. Por isso sou pelo socialismo em liberdade ou, para empregar uma expressão que suscitou tantas esperanças pelo “socialismo de rosto humano”.
 
Creio que o homem poderá libertar-se da miséria e do medo do futuro, sem sacrifício da liberdade. Por isso sou pelo socialismo em liberdade ou, para empregar uma expressão que suscitou tantas esperanças pelo “socialismo de rosto humano”. Relativamente à situação de Portugal creio que o país só pode resolver os seus problemas básicos com recurso ao socialismo. A miséria do povo, a ignorância, a fome, a doença, a insegurança, que são flagelos que, ao longo do tempo o têm diminuído, só podem resolver-se pela planificação socialista da economia e pelo aproveitamento racional dos recursos do país ao serviço da Comunidade.
 
Não é uma tarefa fácil. Porém, não é pela supressão da liberdade nem pelo esmagamento dos direitos humanos que se conseguirá chegar lá. Pelo contrário, é preciso que o povo português tome nas mãos o seu destino e que seja ele a inventar e   construir livremente o seu futuro: nos campos e nas fábricas nos sindicatos e nas regiões. Participando no aparelho de Estado e controlando a todos os níveis, dirigindo os municípios entrando na universidade.
 
Os teóricos do Estado Novo defendem que ainda não estão criadas as condições para a liberdade e fazem disso um axioma com que justificam o prolongamento indefinido da ditadura. A sua longa doutrinação fez escola mesmo entre muita gente que se preza de liberal.
 
Marcello Caetano diria no seu primeiro discurso ao país como Presidente do Conselho. “em tal situação de emergência, há que continuar a pedir sacrifícios a todos, inclusivamente algumas liberdades que se desejaria ver restaurada”.
 
Sabemos agora onde conduziu este canto de sereia, a perpetuação da ditadura.
 
Creio que o povo português tem dado sobejas provas ao longo da sua história multissecular de ser maior mental. Não lhe é imputável nenhuma tara específica que impeça gozar as liberdades e direitos comuns a tantos outros povos. De resto, a liberdade não é incompatível com ordem e com a paz pública - necessárias ao progresso. Mas a ordem que se apoia no esmagamento dos direitos humanos e na falta de liberdades é como a ordem dos cemitérios. Representa a outra face da morte.
A decadência da pátria começou com o absolutismo e com a inquisição no século XVI. Precisamente, começou com a perda da liberdade. Penso firmemente que só a liberdade e o socialismo indissoluvelmente unidos, o poderão resgatar. 


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“Creio que o homem poderá libertar-se da miséria e do medo do futuro, sem sacrifício da liberdade. Por isso sou pelo socialismo em liberdade ou para empregar uma expressão que suscitou tantas esperanças pelo socialismo de rosto humano”.

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​Temos que nos libertar do ciclo infernal, da miséria, do medo e da opressão em que tão longamente nos deixamos confinar. Não se trata apenas do imperativo moral categórico -de um ato de inteligência ou de uma imposição intelectual. Trata-se de uma exigência Patriótica de salvação coletiva de que importa assumamos a consciência plena.
 
Às sugestões da comodidade, do egoísmo ou do interesse individual, familiar ou profissional que apontam para a renúncia ou para ou para o alheamento, com o pretexto que tudo está perdido e nada já é possível fazer, há que opor um esforço pertinaz de inserção na realidade e a vontade decisiva de vencer. Na certeza que só é vencido quem desiste de lutar.”
 
 
Excerto do livro Portugal Amordaçado, de Mário Soares, de 1972. Foi utilizada nesta transcrição a edição portuguesa de 1974. 
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​número 04 // novembro 2023
no. 04 // novembro 2023
Entrevista
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FUNDAÇÃO RES PUBLICA
A Fundação Res Publica é uma instituição dedicada ao pensamento político e às políticas públicas. À luz dos seus estatutos, inspira-se nos valores e princípios da liberdade, da igualdade, da justiça, da fraternidade, da dignidade e dos direitos humanos.


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