REVISTA RES PUBLICA
  • atual
  • Arquivo
  • Estatuto
  • Contactos
__________________________________


Selecionado
​​​no Prémio Res Publica 2024
​__________________________________​

ANA BEATRIZ SANTOS​​
​
é mestranda em Ensino de Filosofia no Ensino Secundário pela FCSH – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Interessa-se pelas potencialidades da pedagogia enquanto ferramenta de superação das estruturas sociais capitalistas, explorando o papel crítico da educação na transformação das relações de poder. Trabalha temas como teoria crítica, filosofia da educação, práticas pedagógicas emancipatórias e a relação entre escola, ideologia e reprodução social. Paralelamente, desenvolve atividade de formação, procurando articular a reflexão teórica com a intervenção prática no campo educativo.
É membro do Movimento Democrático de Mulheres (MDM) e da Associação Frente Anti-Racista (FAR), integrando a luta feminista e antirracista na sua prática teórica e educativa. Assume a intervenção política como parte inseparável do trabalho intelectual, procurando ligar o estudo filosófico ms lutas históricas do movimento operário, feminista e antirracista, que permanecem urgentes e necessárias.

________________________________

QUANDO ADÃO LAVRAVA E EVA FIAVA,
QUEM ERA O SENHOR?
Literatura em questionamento das estruturas
e relações de poder através da leitura da história
​da resistência e sabedoria popular

Ana Beatriz Santos

INTRODUÇÃO
 
O presente trabalho analisa a expressão popular "Quando Adão lavrava e Eva fiava, quem era o Senhor?" a partir de uma perspectiva histórica, explorando as suas raízes no contexto das lutas camponesas da Inglaterra medieval e os seus desdobramentos enquanto questionamento das estruturas de poder.

Dividido em várias seções, o estudo examina a frase enquanto crítica às relações de classe e enquanto metáfora linguística que reflete as condições materiais de sua época. Também investiga o papel da religião e da linguagem na consolidação e perpetuação das desigualdades sociais. Por fim, aborda a importância do trabalho humano na transformação da natureza e da sociedade, defendendo a superação das contradições de classe através da organização coletiva e da conscientização histórica.
A análise propõe não apenas uma compreensão aprofundada da frase no seu contexto histórico, mas também o uso da sua leitura materialista e dialética para iluminar as possibilidades de transformação social no contemporâneo.

1.
CONTEXTO HISTÓRICO

 
No ano de 1348 tinha começado o surto da Peste negra que matou cerca de um terço da população europeia. Só três anos mais tarde se começou a prever o fim desta peste bubónica[1]. A redução drástica da força de trabalho culminou numa escassez de mão de obra que motivou os camponeses sobreviventes a exigir melhores condições de trabalho, já que a sua mão de obra se tornara menos abundante e, portanto, mais valiosa.

Este foi um desenvolvimento histórico que intensificou a tensão entre os trabalhadores, a nobreza e o clero, estes últimos interessados em manter as condições laborais dos camponeses, de modo a preservar a sua riqueza. Assim, a classe dominante da época, em resposta às crescentes exigências dos trabalhadores, implementou, através do Parlamento inglês, leis que limitavam as condições dos trabalhadores.

Durante o reinado de Ricardo II, Inglaterra travava contra a França a guerra dos Cem anos, uma guerra dispendiosa em termos de armamento, de alimentação, de energia, de militares, entre muitos outros gastos que sustentam a economia de guerra. Ora, Ricardo II e o seu governo, para financiarem o esforço de guerra, introduzem um novo imposto, conhecido como Poll Tax, que era cobrado a cada pessoa, independentemente do seu rendimento. Esta foi uma política muito dolorosa para as classes trabalhadoras de Inglaterra, ao sobrecarregar as despesas do campesinato, já previamente desproporcionais à sua condição de vida. Não faltaram aqueles que se levantaram percebendo este imposto como injusto e opressivo[2].

O aumento do Poll Tax em 1381 foi o último golpe para as forças de resistência que já se vinham formando em torno das injustiças do país. As tensões explodiram em Essex e Kent, regiões onde os trabalhadores e camponeses estavam mais organizados[3]. Uns dos mais destacados dirigentes da contestação foram o padre John Ball, que em conjunto com Wat Tyler, deixaram diversos textos e discursos com vista à mobilização dos camponeses para a resistência, nos quais partilhavam um conjunto de visões proponentes de uma sociedade mais igualitária.

É neste cenário histórico, com estes intervenientes, que surge a utilidade da expressão que intitula o trabalho. E foi com este caudal de luta popular que os camponeses marcharam para Londres em junho de 1381, com o objetivo de reunir com o rei para exigir o fim do poll tax, a abolição da servidão, entre outras reformas sociais. Esta revolta é lembrada como um dos primeiros movimentos de resistência das classes trabalhadoras na história europeia. Foi uma demonstração de forças por parte dos camponeses, que embora oprimidos, demonstraram ter organização e capacidade para desafiar as classes dominantes.

O uso desta frase surge aqui neste período, com a história e contexto consequente que a insere e por isso escolhida por uma massa popular para enquadrar a sua realidade. A caracterização que podemos fazer da massa popular à época resume-se à base económica vivida.

O modo de produção feudal tinha um caráter natural, isto porque os objetos que eram produzidos não se destinavam maioritariamente à troca, não eram ainda mercadoria, destinando-se antes, na sua maioria, ao consumo próprio.

A subsistência de várias classes, de diferentes relações de poder assumia o seu caráter exploratório, por norma, de três formas. Através da corveia, a obrigação do camponês de trabalhar, gratuitamente, parte da sua semana nas terras do Senhor. Ou, através dos tributos, da entrega de uma parte dos produtos produzidos na sua própria terra, ou o tributo monetário. A troca entre camponeses e entre camponeses e artesãos, que produziam para vender (porventura também podiam ter uma horta), era realizada entre as cidades e as aldeias vizinhas. No modo de produção feudal, a produção mercantil era ainda de produção mercantil simples, isto é, destinada à troca dentro do Feudo ou em aldeias vizinhas, com a exceção dos bens de luxo, nomeadamente os importados de outros países. Assim, o desenvolvimento das forças produtivas na época do Feudalismo não permitia ainda a afirmação do mercado nacional como espaço central de atividade económica, como virá a acontecer com o advento do capitalismo.

A Europa vivia numa economia à base da exploração agrícola e do escasso desenvolvimentos das trocas, condicionadas também pelas estradas e qualquer outra via de comunicação ainda muito rudimentares. Por isso, a organização geográfica era feita por países divididos em províncias e regiões autônomas.

Com tempo desenvolveu-se o comércio, o que dada a conjuntura no momento significou o mesmo que um acentuar da exploração às condições de vida da classe dos camponeses. Com a generalização do comércio, os Senhores feudais eram capazes de adquirir uma maior quantidade de bens de luxo, bem como armas, usadas para constringir ainda mais a possibilidade de libertação da vontade popular. Os tributos deixam de ser exigidos em espécie passando a ser cada vez mais comum a prática de tributos em dinheiro, que exigia aos camponeses a mercadorização do produto do seu trabalho, de forma a adquirirem dinheiro que permitisse o pagamento dos tributos exigidos pelo senhor feudal.

Face às contradições sentidas e às relações vividas entre as diferentes classes sociais, a frase que intitula o trabalho, tornou-se num tipo de questionamento popular usado para desafiar o poder da nobreza e da Igreja.

Este facto histórico elucida como a consciência das estruturas de poder foi ganhando forma ao longo do tempo, aqui como uma crítica à aristocracia medieval e ao clero que afirmavam ter um direito divino ao domínio e à autoridade sobre o povo. Ao evocar um tempo “antes” da existência de senhores e igrejas, as pessoas questionavam a legitimidade das classes dominantes, era como dizer: “Se todos viemos de Adão e Eva e, naquele tempo, não havia nobres ou reis, então quem lhes deu o direito de governar?”
 
2.
1ª PARTE DO SENTIDO DE SENHOR
– O SENHOR ENQUANTO CLASSE DOMINANTE

 
As coisas que dizemos reportam-se ao nosso meio. A própria noção morfológica de um verbo ou de um nome evidenciam como existe relacionamento entre os humanos e a natureza. A língua liga-nos à realidade. “Quando Adão lavrava e Eva fiava, quem era o Senhor?”[4], no longo reportório cultural humano, é uma frase com uma história, com as suas razões e contexto para fazer sentido. Como produto social, a consciência, dependente do modo de relacionamento que esteja inserida, aquilo que dizemos e pensamos são expressões das nossas condições materiais, produzidas através da atividade e do intercâmbio material entre todos nós.

Se assim não fosse, teríamos de negar a comunicação entre matéria. Teríamos de seguir o caminho de supor algo para além desta materialidade condicionante, de supor um espírito à parte (Marx, 1845). Se seguíssemos esse caminho chegávamos ao mundo fantasmagórico do idealismo, cheio de palavras que querem ser mais do que são e que nos atormentam, abstrações da nossa autoconsciência que nos perseguem como metas. Marx fala destas abstrações como frases, “(…) estas mesmas frases nada opõem senão frases”. Vamos aprofundar as consequências deste caminho mais à frente.

Iremo-nos manter no caminho que acompanha o movimento histórico, com os factos e artefactos históricos que temos à disposição, isto é, os diversos registos materiais que são deixados.

Como vimos a história do uso desta frase remonta até à Idade Média, era um tipo de questionamento popular face à economia feudal que comportava em si a exploração por uma classe militar, guerreira, à defesa do Senhor, ou do Rei, possibilitada pela desigualdade de rendimentos entre diferentes classes, a uma massa de produtores isolados e vinculados ao solo, servidão (Lefebvre, 1955).

Uma peça histórica de resistência e sabedoria popular, usada para lembrar que as estruturas de poder e autoridade são mecanismos de produção e reprodução social – as forças produtivas, a força de trabalho e instrumentos vigentes numa determinada época histórica – e não derivações de uma ordem natural, ahistórica e associal, isto é, não tão naturais quanto aparentam.

Podemos reportá-la como uma alusão a um tempo primitivo (pela história das palavras, estes nomes surgem sobre um contexto mitológico, religioso, na tradição cristã, à época de Adão e Eva) como um símbolo de pureza e simplicidade, ou como um tempo em que a divisão de trabalho se relacionava com o tipo de propriedade comunal[5]. Para além do recurso à alusão podemos também recorrer à metáfora, pelo uso da retórica, ao sugerir através dos paralelos da atividade do trabalho entre as duas realidade, a vivida e aquela que se pretende enquadrar com a frase, que nesse tempo mais simples não existia uma autoridade formal sobre as pessoas.

A análise da língua tem estas particularidade de dar resposta, através da combinação destes recursos expressivos chega-nos a reflexão sobre as origens da humanidade e sobre as construções de poder e autoridade ao longo do tempo.

O Senhor na frase pode ser a representação de uma figura de autoridade ou de organização que ainda não existia no suposto tempo de Adão e Eva. Dado que o tipo de propriedade ainda não era privado e por isso as forças produtivas e as relações sociais que daí resultam ainda não conheciam a dicotomia de dono e escravo.
​
Portanto, esta frase (que reflete uma ideia sobre poder) enquanto expressão de sabedoria popular questiona as relações de poder nas quais a população se insere e reconhece. Na literatura representa-se muitas vezes assim os homens ricos, por exemplo, n´Os Maias o termo é usado muitas vezes no contexto das interações da elite lisboeta, que Eça de Queirós se ocupou de retratar no livro.

A personagem Dâmaso é um exemplo de uma pessoa capaz de fazer a leitura das dinâmicas sociais e tentar aproveitar-se delas para alcançar os seus interesses. O que acaba por ser reconhecido pelas outras personagens, que consequentemente, o deixa retratado como uma pessoa com um caráter superficial e pretensioso, sempre preocupado com as aparências. Apesar de também pertencer a uma classe mais alta, continua a referenciar-se aos seus amigos do comércio com o termo senhor.

Os termos que Dâmaso usa refletem as dinâmicas de relação e as forças de produção que se insere, a forma como sente que precisa de abordar a sua realidade. A linguagem é também uma ferramenta de poder que Dâmaso utiliza, como uma forma de capital social, o que revela como as condições materiais e sociais moldam e refletem o comportamento humano.

Ora, como estes exemplos há muitos mais na literatura portuguesa, Paulo Freire fala da linguagem e da escrita como formas de praticar a nossa realidade, como sendo aquilo que dizemos e escrevemos formas de colocar as nossas condições materiais, como ela é. É inserindo-me numa cultura que aprendo uma língua, que me coloca num processo específico [a essa cultura] de interação com a minha realidade. É o meu vocabulário que me assiste quando preciso de processar alguma coisa.

É com as conversas que temos com os outros que somos capazes de enquadrar aquilo que se passa connosco em termos percetíveis. “A descodificação da situação existencial” em palavras provoca uma partida abstratamente até ao concreto, o que “(…) implica uma ida das partes ao todo e numa volta deste às partes, [o] que implica um reconhecimento do sujeito no objeto (a situação existencial concreta) e do objeto como situação em que está o sujeito.” (Freire, 2019)

A codificação que está presente antes de re-colocar a existência, antes de lhe dar uma expressão, é a representação desta [da existência], com os seus elementos constitutivos em interação. O processo de descodificação possibilitado pelas diversas formas de expressão, mas aqui sublinhando-se a linguagem, que funciona como uma análise crítica da situação codificada. Crítica porque são as palavras que escolhemos usar que elucidam a forma como estamos inseridos em determinado contexto histórico.

3.
2ª PARTE DO SENTIDO DE SENHOR
– O SENHOR ENQUANTO IDEIA TRANSCENDENTAL DO DIVINO



A língua portuguesa, ao contrário da inglesa, a língua de origem desta frase, é capaz de atribuir dois sentidos à palavra Senhor. Entendemo-la, como acabamos de ver, para retratar as pessoas num lugar de poder elevado, em relação à existência de pessoas que não têm os meios para ter poder. Mas é também capaz de atribuir ao termo senhor um outro sentido. Senhor enquanto ideia transcendental do divino. A literatura deste uso é mais alargada, dado que está presente em muitos romances e em muitos livros religiosos.

Ora com este sentido a nossa análise pode ficar mais rica porque podemos analisar mais uma contradição social à luz do uso linguístico que se pode fazer dela. No caso prático português podemos atribuir isto a diversas causas.

Portugal reuniu as condições para uma promiscuidade entre a nobreza e o clero, a ponto tal que o mesmo termo se encarregou de representar duas supostas entidades diferentes, mas aparentemente ligadas [via termo]. A polissemia do termo Senhor reflete a interseção histórica e cultural entre a nobreza e o clero em Portugal e noutros contextos lusófonos, especialmente durante o período medieval e colonial. Durante a idade média, a palavra Senhor era usada, como já vimos, para referenciar os nobres e membros do clero que possuíam terras e exerciam poder sobre os súbditos. Os Senhores feudais tinham um poder quase absoluto pela autoridade que desempenhavam, similar ao poder divino dentro dos domínios que coloca a si mesmo.

A submissão a um poder divino coloca o indivíduo num mundo que foi pensado por uma suposta entidade, coloca a sua vida num jogo das vontades divinas. A Bíblia, por exemplo, aborda a vivência humana em todas as suas dimensões, oferece orientações detalhadas para cada aspecto da vida, integrando tudo na procura por uma existência alinhada ao Bem.

Esta forma de referenciação a Deus procura enfatizar respeito, reverência e submissão. Ao mesmo tempo estava em voga a doutrina do Direito divino, portanto uma noção de que os nobres eram escolhidos por Deus para governar, o que criava uma ligação simbólica entre a autoridade dos senhores e a autoridade divina [o que como vimos foi alvo de superação].

Durante o período feudal, a relação entre a nobreza e o clero era muito próxima, muitos membros da nobreza ocupavam posições importantes na Igreja, e a Igreja legitimava o poder dos nobres. Há que pensar como é que a religião teve um peso acrescido nessa época histórica face ao papel que tinha de desempenhar de justificar, ou sustentar toda a base monárquica. Esta simbiose foi tão intensa que frequentemente o clero e a nobreza partilhavam títulos e privilégios.

A ideia era tender à consideração que Senhor representava a figura de poder espiritual, Deus, e senhor representava a figura de poder temporal, ou terrena, o Nobre. Abrir assim uma porta a dois tipos de respeito que as pessoas deviam ter, ao Senhor e ao senhor da terra.
 
4.
A CONTRADIÇÃO ENTRE A DOMINÂNCIA CONCRETA
E AS ABSTRAÇÕES IDEÁRIAS QUE A LEGITIMAM E POTENCIAM

 
A procura do conhecimento pelo pensamento humano parte da dicotomia entre sujeito e objeto. Ao longo da história foram existindo diferentes respostas de várias correntes de pensamento, o que permitiu a sua classificação numa lista de tendências, idealistas, empiristas, racionalistas, materialistas, metafísicas etc.

Karl Marx procurou aprofundar o estudo das leis sociais através da dialética e da história, desenvolvendo o materialismo histórico e dialético. Ocupou-se de fazer revelar o caráter opressivo e exploratório da propriedade privada, através da apropriação privada do sobreproduto social [no modo de produção capitalista, a mais-valia] na forma de renda, lucro e juro. O materialismo dialético identifica como fundamental a contradição entre a apropriação privada do excedente produtivo – resultado do trabalho cuja essência transformadora ao valor acresce mais-valor[6] [Mehrwert] – por via da propriedade privada dos meios de produção, e o caráter social do trabalho[7], através do qual o valor se materializa.
​
A centralidade desta contradição advém da primordialidade material de toda a formação económica e social, do papel das forças produtivas [Produktivkraft] e das relações de produção [Produktionsverhältnisse] enquanto base de qualquer modo de produção. Sob a qual se ergue uma superestrutura, constituídas pelas normas e ideias que continuamente mantém e/ou aprofundam as relações de produção em torno das quais o modo de produção em questão é sustentado.
“[…] toda a história [é] da luta de classes, e que essas classes sociais em luta entre si eram em todas as épocas fruto das relações de produção e de troca, isto é, das relações económicas da sua época […] a estrutura económica da sociedade em cada época da história constitui, portanto, a base real cujas propriedades explicam, em última análise, toda a superestrutura integrada pelas instituições jurídicas e políticas, assim como pela ideologia religiosa, filosófica, etc, de cada período histórico.” (Engels, 1880)
Assim, o materialismo dialético, e as suas conclusões relativamente ao funcionamento das formações económicas e sociais, assim como as possibilidades de transformação por este método iluminadas, não negam a importância da superestrutura. Antes, afirmam primordialidade da matéria face à ideia, das forças produtivas e das relações sociais de produção face aos produtos ideais que nelas influem. Em suma, um processo de interação mútua e contínua, o qual em última análise é possibilitado pelas condições materiais sobre as quais a sociabilidade e a individualidade existem, sobre as quais a reflexão e interação humana possibilitam a ideia, enquanto produto da vida humana, mas posteriormente também fator de produção das ações constituintes da processualidade deste nosso devir. A cada estado de desenvolvimento das formas de produção material correspondem formas específicas de estruturação social, além de valores e formas de apreensão da realidade.

Desta forma podemos assertivamente afirmar que são as classes dominantes de determinada época quem controlam os meios de difusão da sua ideologia, sejam os costumes, sejam os meios de comunicação, a classe dominante tem a vantagem de constituir a norma. O poder não é apenas repressivo, mas também produtivo, ele não apenas proíbe, mas cria normas, saberes e subjetividades. A normatividade refere-se aos padrões que definem o que é aceitável, correto ou desejável numa sociedade. Esses padrões não são naturais nem universais – são construções históricas que emergem de práticas discursivas e institucionais.
 
5.
A SUPERAÇÃO [AUFHENBUNG] DA SABEDORIA POPULAR

 
A ideia na filosofia não é abordada como um reflexo da realidade material, das relações e contradições vividas em determinada sociedade, mas antes, como refere Marx n`A Ideologia Alemã “(…) relação = ideia. [Os filósofos] conhecem apenas a relação “do homem” consigo mesmo e, por isso, todas as relações reais tornam-se, para eles, ideias.” Segundo estas fantasias, as relações entre as pessoas, toda a sua atividade são produtos da consciência.
​
Esta corrente analisa casos como o da Revolta Camponesa de 1381 como expressões de ideias, valores ou transformações na consciência humana, ignorando as suas bases materiais, isto é, evita analisá-los como alicerçados às condições materiais e estruturais. Coloca aquilo que aconteceu como por exemplo uma manifestação de ideias Universais, como a justiça, a liberdade ou a igualdade, que emergiram espontaneamente na consciência dos camponeses. Os camponeses teriam passado a compreender valores morais superiores que antes lhes eram inacessíveis. A consciência de opressão seria uma realização interna e subjetiva, uma perceção de que algo estava errado e tinha de ser corrigido.

1) A interpretação idealista platónica  

Platão poderia subscrever esta linha de pensamento dada a sua crença nas Formas Universais que moldam a realidade. Princípios como a justiça ou a igualdade existiriam como ideais eternos, intermediados pela razão. O mundo que percebemos através dos sentidos é apenas um reflexo de uma realidade superior – o mundo das Formas Universais. O mundo material apenas nos coloca em contacto com o Universal, com os princípios eternos e perfeitos que estruturam toda a realidade e servem como referência para os moldes como nos relacionamos com o Outro.

Para Platão o ser está no mundo em processo de anamnese [ἀνάμνησις], num processo de lembrança. Isto quer dizer que, o conhecimento não é adquirido a partir da experiência, mas relembrado pela alma, possuidora desse saber inato. Como a alma neste enquadramento platónico seria imortal e existiria antes de nascer o corpo físico, onde durante essa existência pré-corpórea, alma teve acesso direto ao mundo das Formas, do Universal, contemplou as verdades eternas e universais, como a justiça, a igualdade, o bem, o belo, entre outras. Quando chega ao mundo físico, a alma esquece-se desse conhecimento e a vida humana passa a ser um processo de relembrar as verdades que estão enraizadas na alma. A educação [paideia] e a experiência não introduzem novas informações, mas ajudam a alma a recordar o que já sabia, despertam o que já está na alma.

O autor interpretaria a revolta de 1381 como um momento em que as Formas Universais, como a justiça, ou a igualdade se manifestaram no mundo material. Os camponeses mesmo vivendo em condições opressivas poderiam ter-se lembrado dos princípios eternos, reconhecendo, por exemplo, que a desigualdade em que viviam contradizia o ideal de igualdade e que a opressão dos senhores feudais violava a justiça na sua Forma perfeita. Estas perceções não seriam, para Platão, um produto das condições materiais ou da experiência histórica, mas uma memória do mundo das Formas.

No texto A República, Platão oferece uma estrutura tripartite que permite interpretar os impulsos humanos tanto a nível individual, quanto coletivo. Esta estrutura divide a alma numa parte racional [logos], num parte irascível [thymos] e numa parte concupiscente [epithymia]. A parte racional seria a que estaria voltada para o conhecimento, para a contemplação das Formas Universais, por isso, a parte superior. A parte irascível estaria relacionada à coragem, à honra e à luta contra a injustiça, um mediador entre a razão e os desejos. A parte concupiscente, por imposição da hierarquização, seria a parte inferior, associada às necessidades básicas e aos desejos materiais, como a alimentação, e outros prazeres sensoriais.

Percecionada através desta estrutura, a revolta de 1381 aparenta um processo de iluminação da alma em que a parte irascível das almas dos camponeses foi desperta, a luta por melhores condições, ainda que materiais, estaria fundamentada num desejo de alinhar a realidade com os Ideais Universais. O thymos, mediado pelo logos, transforma essa luta material numa expressão de algo mais elevado, o desejo de corrigir o desequilíbrio entre o que é (a realidade sensível) e o que deveria ser (realidade ideal).

Para Platão, toda a ordem social ideal deveria refletir o mundo das Formas. Se a sociedade é injusta, ela está em desacordo com o Ideal de justiça, as revoltas históricas são apenas respostas a desequilíbrios. A alma coletiva da sociedade (composta por muitas almas individuais) experimenta uma espécie de despertar espiritual, um passo rumo à lembrança da verdadeira justiça. No entanto, não via nas revoltas populares a resolução para os problemas de desigualdade nas sociedades, porque apenas a compreensão plena das Formas pode guiar uma sociedade para o verdadeiro bem. Na sua visão, o caos das revoltas materiais reflete a falta de um governo de sábios filósofos que entendem a justiça na sua forma pura, por se encarregarem da contemplação das Formas. Um estado governado por filósofos alinharia a sociedade com as Formas Universais e evitaria as injustiças que levam a revoltas.

2) A interpretação idealista hegeliana  

Hegel seria outro concorrente a esta linha, via a história como o progresso do espírito [Geist] em direção à liberdade, manifestada por momentos de conflito e transformação. O conceito de progresso do espírito [Geist] em direção à liberdade é uma ideia central no pensamento hegeliano que está relacionado com o seu enquadramento da história. O autor entendia a história humana como um processo dialético, no qual o espírito humano se desenvolve gradualmente para níveis mais elevados de consciência e liberdade. O Geist representa o espírito, a mente humana coletiva ou o desenvolvimento da consciência universal. Não se trata com Hegel de uma característica individual ou subjetiva da mente humana, mas sim uma entidade universal e histórica que representa o progresso coletivo da consciência humana ao longo do tempo. Transcende o indivíduo, trata-se de uma consciência humana coletiva que se manifesta nas formas culturais, sociais e históricas da humanidade.

Este espírito forma-se da interconexão entre os humanos, é formado por todas as interações humanas ao longo da história. Ele é tanto o produto das ações humanas quanto o contexto no qual essas ações acontecem. O espírito coletivo expressa-se então nas artes, na religião, na política, nas leis e na filosofia. Pensa-se o espírito em ligação às instituições e à cultura em geral, tratam – se estas de formas objetivas do Geist, em que a consciência universal se concretiza no mundo.

Segue-se deste itinerário hegeliano a paragem na dialética. A dialética que comporta o processo marcado por conflitos, contradições e superações [Aufhebung], em três etapas principais. Cada etapa representa um avanço do desenvolvimento da consciência universal, em que o espírito se move de uma compreensão limitada de si mesmo, para uma compreensão na íntegra. Daqui, a história humana não é uma sequência aleatória de eventos, mas uma manifestação concreta do desenvolvimento do Geist. Uma linha teórica que concebe a história humana presa a um processo teológico, ou seja, dirigido a um fim, que é a realização da liberdade e da consciência universal. A história vê-se vista sob um olhar que lhe quer como um progresso positivo, como progresso da liberdade. Assim, as sociedades humanas passam por conflitos, como revoluções, que, embora dolorosos, são necessários para o avanço da consciência e das instituições humanas. Hegel via nas grandes figuras históricas do seu tempo, não apenas indivíduos isolados, mas agentes do Geist, que ajudam a conduzi-lo ao próximo estágio do seu desenvolvimento. Embora cada indivíduo contribua com a sua subjetividade, a dialética espiritual, unifica as perspectivas individuais numa consciência maior, que ao mesmo tempo orienta a época histórica. Não reflete apenas o presente, mas acumula o conhecimento e as realizações do passado. Cada nova etapa da história incorpora e supera as anteriores, levando a cabo uma consciências mais rica e abrangente.

Fundamentalmente, o espírito é o motor do progresso humano, representa a essência coletiva da humanidade, que se desenvolve ao longo da história e que passa por estágios de contradição e resolução: These (tese), Antithese (antítese) e Synthese (síntese). Estes conceitos formam a base da dialética hegeliana, em que cada estágio [These] entra em contradição com outro [Antithese] e resulta numa síntese [Synthese], que supera e reconcilia os elementos contraditória dos dois momentos anteriores. Esse processo dialético não apenas resolve a contradição, mas eleva o entendimento a um novo nível. A síntese vê-se também sujeita a tornar-se uma nova tese, dando origem a outra antítese. Este processo contínuo impulsiona o progresso do pensamento, ou da realidade, é o motor do autodesenvolvimento do Geist, que o conduz ao progresso em direção à realização de um ideal absoluto.

Como Platão, Hegel dá a primazia à filosofia, como forma de expressão mais elevada do Geist. É com a filosofia que há um contacto com a reflexão da própria história, é onde o espírito se torna consciente de si mesmo. O papel do filósofo é captar o movimento do Geist na história e articulá-lo em conceitos, o que permitirá à humanidade compreender o seu lugar no progresso universal.

A revolta de 1381 seria apenas mais um momento de uma realização parcial e inicial da liberdade, ainda que inconsciente da sua totalidade. Os camponeses, mesmo sem formular uma filosofia articulada de liberdade universal, agiram em nome de valores com a justiça e a igualdade, que Hegel consideraria manifestações do espírito Absoluto emergindo através da história. Os indivíduos participaram no desdobramento de algo maior que eles próprios, a marcha histórica em direção à realização plena da liberdade, o avanço do Espírito.
 
5.1.
CONSERVAR A CONCREÇÃO DA DIREÇÃO
DA REVOLTA POPULAR ÀS CLASSES DOMINANTES

 
Como referimos mais acima, ao longo da história são várias as teorias que procuram dar resposta ao dualismo de sujeito objeto presente no processo da existência. O marxismo coloca em cima da mesa o questionamento das condições que fazem determinadas teorias de pensamento surgir. Este questionamento parte de um contacto com a realidade que nota que pensamos e agimos de forma diferente uns dos outros. As conceções de felicidade, ou de sentido são diversas. Em conjunto com a questão coloca também as condições de vivência das pessoas, isto porque, entende que são as condições em que alguém surge que condiciona os seus interesses, o seus desejos, os seus gostos, e tudo aquilo que integra um modo de ser. Se a sociedade está dividida em classes, se há uma classe que resiste à custa de outra, então não pode haver uma conceção única do mundo. A filosofia, ensina-nos Lenine, é sempre uma filosofia de partido. A forma como pensamos nas coisas, como colocamos a nossa realidade procura defender, ou elevar os nossos interesses de classe.

A filosofia idealista foi abrigada pelas classes dominantes ao longo da história pelo refúgio que possibilitou ao considerarem que a consciência precede a matéria, que a natureza é engendrada por uma consciência mais elevada. O pensamento, o espírito são a base disto tudo.

Como vimos com Platão, ou com Hegel a história são momentos que nos afinam para um estado Positivo, Absoluto. A história está como um caminho para algo idealizado como melhor.

A questão que Marx apresentou coloca-se aqui, essa idealização, do mundo das Formas, ou do Estado superior do Geist, são ideias ao serviço de quem?

Este tipo de visão sub specie aeterni (sob a perspectiva da eternidade) que é constantemente colocada pela filosofia idealista indica uma visão que transcende o tempo e as contingências imediatas, contemplando a vida de uma forma universal e atemporal. A defesa de partido que Lenine fala que a filosofia executa encontra-se neste ponto, porque para um indivíduo que procura conservar a sua posição de exploração é necessária uma forma de ver a vida ahistórica, desprendida das particularidades materiais que englobam determinado acontecimento. É necessário o refúgio, para fugir ao choque das contradições sociais com a harmonia por si pressuposta “Para remover essas coisas, ele tem, portanto, que procurar refúgio numa dupla contemplação: uma contemplação profana, que capta somente o que é palpável (…)” (Marx & Engels, 1845), que pertence à forma de vida daquele que não participa no mesmo ambiente que a classe dominante, por exemplo, aquele que não vai à faculdade. E o “(…) refúgio numa contemplação mais elevada, filosófica, que capta a “verdadeira essência das coisas.” Marx & Engels, 1845.

5.2.
SUPERAR A CONCEÇÃO METAFÍSICA DO SER
– ONTOLOGIA DO TRABALHO

 
O abandono do mundo fantasmagórico da metafísica supera a dificuldade da sustentação do status quo que naturaliza e justifica a posição de exploração, o abuso de poder, de uma classe sobre a outra, ao propor que a realidade social é o reflexo de uma consciência superior, ou de uma ordem eterna e necessária.

A realidade social demonstra que nada é eterno e necessário. Tudo nasce e padece, tudo o que hoje é uma necessidade, amanhã é uma causa para outra coisa qualquer.[8] Este refúgio metafísico, desconectado das condições materiais e concretas de existência, é refúgio porque nos aliena da nossa cultura.
Bento de Jesus Caraça colocava a seguinte questão: O que é um homem culto?
“1º Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.” (Caraça, 1933)

Cultura não se pode confundir com civilização. Aquilo que teríamos se cometêssemos esse deslize seria medir-se a forma como alguém entende a sua vida, da mesma forma, que a quantidade e qualidade dos meios que a sociedade coloca à disposição para lhe dar uma existência. Cultura refere-se muito mais à forma como o indivíduo entende a sua estadia nas condições em que se insere e da “(…) facilidade que ao indivíduo se deve dar para a viver; pelo modo como nele se compreende e proporciona o consumo; pela maneira e fins para que são utilizados os progressos da ciência; pelo modo como entende a organização das relações sociais e pelo lugar que nelas (…)”.

Numa convivência antagónica, em que historicamente, há uma classe que domina à custa das classes que domina, que ao dominar conquista todos os meios para a sua manutenção e reprodução. Tem de haver lugar para elevar as formas de pensar [através dos meios materiais que dispõe] que ignoram as contradições materiais que moldam a realidade e as ações humanas, as condições de produção.

A cientificidade trata-se de uma qualidade que não se pode desprender de um programa concreto de investigação que leva a cabo (José Barata Moura). Investigação que dá conta do real na unidade e na multiplicidade[9] da sua determinação deveniente, naquilo que é [no espaço de atuação], isto é, nas contradições plurifacetadas em que se desenvolve, em que se tece e entretece. Trata-se disto de um programa de investigação concreto, que chega a resultados, critica-os, aprecia-os e os reequaciona. O marxismo desenvolve-se “(…) como programa de investigação concreto que todo o saber fundado e relacional é científico.”.

Isto é importante porque reconhece o sentido recetivo [vincula a memória (José Barata Moura)] e cumulativo da epistemologia e da gnosiologia do ser humano, mas conclui-se que não é só isto que está em causa. Não só há esta acumulação de vivência com as nossas condições, como também se pensa no passado, podendo criticar-se reversivelmente até aos confins da memória, sempre a partir da crítica dos contributos até ao momento. Este raciocínio ligado ao passado e ao presente tece-se e entretece-se da mesma maneira ao futuro, permanecendo a possibilidade de outras coisas poderem surgir, para o qual nos des-equilibram e pro-jectam.

O consenso em relação ao saber articula-se na noção de transformação, o nosso saber funciona em transformação constante. O consenso atinge-se quando somos capazes de colocar que a realidade material funciona também em transformação constante. O processo escolar, que as crianças e os adolescentes devem fazer parte, retrata estas transformações dialeticamente dadas na realidade e no seu saber, como a sua forma de saber, e aquilo que sabem, se fundamentam na realidade material a que as crianças e adolescentes estão inseridas. Ver o processo de crescimento de uma criança, ou pensar no nosso próprio, é reconhecer que houve uma mudança na forma de funcionar com as coisas, no modo e forma de conhecer a realidade “(…) o próprio saber fundamentado do real se converte, ele mesmo, em ferramenta e em factor de transformação do próprio real.”.

As condições em que a sociedade se produz e reproduz são estabelecidas na base das condições materiais de produção. Já Marx dizia : “[…] os homens, antes do mais, têm primeiro que comer, beber, abrigar-se e vestir-se, antes de se poderem entregar à política, à ciência, à arte, à religião, etc., […] que, portanto, a produção dos meios de vida materiais imediatos (e, com ela, o estádio de desenvolvimento económico de um povo ou de um período de tempo) forma a base, a partir da qual as instituições do Estado, as visões do Direito, a arte […] se desenvolveram e a partir da qual, portanto, elas têm também de ser explicadas – e não, como até agora tem acontecido, inversamente.” (Marx e Engels, 1985)
 
6.
ONTOLOGIA DO TRABALHO

 
O trabalho é uma atividade praticada com um fim em vista no decurso da qual os humanos transformam os objetos naturais de acordo com as suas necessidades.

“Na produção, os homens atuam, não apenas sobre a natureza, mas também uns sobre os outros. Eles produzem apenas na medida em que cooperam de um determinado modo (...). Para produzirem, estabelecem entre si determinadas relações e condições, e é só dentro deste conjunto de relações e condições sociais que tem lugar a sua ação sobre a natureza, a produção.” (Marx e Engels, 1985)

O trabalho revela-se a maior fonte da compreensão que o humano tem das ligações naturais. Ao animal, que aceita as coisas naturais como as encontra, que, portanto, se adapta passivamente a elas, estava e está vedada esta compreensão. O humano, tornando- se ativo, pode repetir ações, consolidar, corrigir e aprofundar as suas experiências.

Começou, apoiado na experiência do trabalho, a refletir sobre as suas atividades laborais, a planeá-las de antemão. Deste modo, o humano em formação começou a conseguir, por meio do trabalho, o domínio gradual sobre a natureza que directamente o cercava, começou a conhecer. O pensamento humano, o espírito, surgiu da disputa com a natureza, no trabalho. Por outro lado, a criação do trabalho contribuiu necessariamente para unir mais estreitamente os membros da sociedade, na medida em que multiplicava os casos de auxílio mútuo, de ação conjunta, e tornava clara na consciência a utilidade desta ação para cada um.

O trabalho não criou apenas, em determinado sentido, o humano, o trabalho é também a base de todos os progressos ulteriores do humano. Do trabalho nasceram a sociedade, o pensamento e a linguagem.

À cabeça, ao desenvolvimento e atividade do cérebro, foi atribuído todo o mérito do rápido progresso da civilização, os homens habituaram-se à conceção de que o que faziam resultava do seu pensamento, e não das suas necessidades.

Assim nasceu uma visão do mundo que deu ao espírito o primado sobre a realidade e que, finalmente, chegou ao ponto de proclamar que o espírito criou a natureza, que Deus criou o mundo e os humanos. Esta é, como se vê, uma visão do mundo que coloca de pernas para o ar (no sentido mais exato do termo) a relação que verdadeiramente existe. Esta visão cria o seu mundo próprio, não está na terra, impõe o seu mundo na terra, procura no “ar” o seu mundo.

As pequenas e grandes realizações que nós hoje vemos no nosso país e no mundo, as maravilhas da técnica, as grandes construções, as máquinas e os aparelhos mais complicados, os largos campos agrícolas, foram realizados graças ao trabalho humano. É através do trabalho que o humano gera riqueza, isto é, produz os bens que permitem satisfazer as suas necessidades. Nesse processo o humano transforma a Natureza, domina- a e coloca-a ao seu serviço. Engajado neste processo de transformação da Natureza, o humano também se transforma a si próprio.

O trabalho produz assim um acréscimo permanente dos conhecimentos humanos que se incorporam no próprio humano ao mesmo tempo que pela acumulação sucessiva do saber vêm a constituir a ciência. É com o trabalho que o ser humano aguça a sua relação com exterior, é com ele que conhece as leis que regem o mundo. Fundamentalmente é ele que nos permite produzir conhecimento, através da teorização da nossa realidade, para o poder praticar.
 
7.
CONCLUSÃO

 
Este estudo percorreu a análise histórica e linguística da expressão popular “Quando Adão lavrava e Eva fiava, quem era o Senhor?”, elucidando a sua origem e relevância no contexto das lutas camponesas do Séc. XIV. Partindo do exame do contexto medieval, marcado por profundas contradições entre classes sociais e pela exploração feudal, vimos como esta frase emergiu como uma crítica à naturalização da desigualdade de poder.

A abordagem materialista-dialética permitiu desvendar como é que esta sabedoria popular reflete não apenas a resistência às estruturas opressoras da sua época, mas como também carrega implicações que transcendem o tempo, iluminando os processos de reprodução das relações de classe.

Com base nesta fundamentação teórica identificamos que o desafio atual consiste em superar não apenas as estruturas materiais da exploração de classes [propriedade privada], mas também os mecanismos ideológicos que as sustentam. Isso exige a organização e a consciencialização das massas trabalhadoras, a valorização das formas de resistência histórica e a divulgação de uma pedagogia emancipadora que descodifique a realidade material e as contradições que a sustentam.

Este processo deve basear-se na solidariedade e na ação coletiva, capazes de confrontar as normas impostas pelas classes dominantes e construir uma sociedade fundamentada na igualdade e na justiça social.
​
A frase que intitula o trabalho lembra-nos que as relações de poder são construções históricas que podem e devem ser transformadas. Ao manter-mos esta perspectiva, reafirmamos o potencial revolucionário da consciência histórica e da ação coletiva, elemento essenciais para superar as contradições da sociedade de classes e alcançar uma humanidade verdadeiramente livre.

BIBLIOGRAFIA
 
Barata Moura, J. (2010). É o Marxismo Científico? Avante! ed. Lisboa.
Caraça, B. de J. (1933). A Cultura Integral do Indivíduo Problema central do nosso tempo.
Engels, F. (1880). Do Socialismo utópico ao Socialismo científico.
Lefebvre, H. (1955). O marxismo. Livraria Bertrand.
Lenine, V.I. (1914). Karl Marx Breve Esboço Biográfico Seguido de uma Exposição do Marxismo. [online]  www.marxists.org.        Available          at: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1914/11/marx-avante.htm.
Marx, K. and Engels, F. (1845). a ideologia alemã. Brasil: Boitempo.
Marx/Engels, Obras escolhidas em três tomos, ed. Cit., t.3, 1985, p.179. (Nota das edições
Avante!)
marxists.org (2004). Friederich Engels: O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem. [online] Marxists.org. Available at: https://www.marxists.org/portugues/marx/1876/mes/macaco.htm.
marxists.org (2013). Materialismo e Empiro-Criticismo. [online] www.marxists.org. Available at: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1909/empiro/index.htm.
marxists.org (2024). Miséria da Filosofia Resposta à Filosofia da Miséria do Sr. Proudhon. [online]   Marxists.org. Available at:
https://www.marxists.org/portugues/marx/1847/miseria/cap08.htm. Capítulo II — A Metafísica da Economia Política Parágrafo V — As Greves e as Coalizões dos Operários.
marxists.org (2016). 3. O Feudalismo. [online] www.marxists.org. Available at: https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/estudo/segal/04.htm#tr15.
Paulo Freire (2019). Pedagogia do oprimido. Rio De Janeiro Paz E Terra.

​download PDF
​número 06 // dezembro 2025
no. 06 // dezembro 2025
Artigo
download PDF
FUNDAÇÃO RES PUBLICA
A Fundação Res Publica é uma instituição dedicada ao pensamento político e às políticas públicas. À luz dos seus estatutos, inspira-se nos valores e princípios da liberdade, da igualdade, da justiça, da fraternidade, da dignidade e dos direitos humanos.


​
​
fundacaorespublica.pt









1. Causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida principalmente através de pulgas de ratos, a peste bubônica teve sintomas terríveis e espalhou-se rapidamente devido às condições insalubres da época.
A transmissão da peste bubónica acontecia principalmente por picadas de pulgas infectadas que viviam em ratos. Há medida que os ratos morriam, as pulgas procuravam novos hospedeiros, incluindo seres humanos. A infecção podia espalhar-se rapidamente para outras formas, como a peste septicémica (quando a bactéria entra na corrente sanguínea) e a peste pneumónica (quando infecta os pulmões), que era ainda mais contagiosa.

2. Ver, [1] Froissart’s Chronicles, Jean Froissart, [2] "The Anonimalle Chronicle, 1333 to 1381", Abadia de Saint Mary's, em York, [3] The Peasants' Revolt of 1381, R.B. Dobson.

3. Essex e Kent estavam próximos de Londres, o centro político e econômico da Inglaterra. A proximidade com a capital significava que essas regiões eram influenciadas por ideias políticas e novas formas de resistência que circulavam entre os trabalhadores urbanos e rurais. Para além disso, as suas rotas comerciais estavam bem estabelecidas e tinham acesso a portos importantes, como o porto de Sandwich em Kent. Como Essex e Kent estavam relativamente próximos de Londres e tinham mais independência, os camponeses e trabalhadores rurais nessas áreas viam a nova tributação e repressão como uma afronta directa aos seus direitos. O que gerou uma mobilização mais rápida e eficaz em comparação com regiões mais isoladas, onde a resposta à opressão era fragmentada. O intercâmbio constante trouxe não apenas mercadorias, mas também notícias e ideias, que fomentaram uma maior consciência sobre as injustiças e fortaleceram a comunicação entre os trabalhadores.



































4. When Adam delved and Eve span, who was then the gentleman? (Ball)



























​
5. Primitiva, no sentido em que a base da divisão era dominada pelas diferenças físicas, por exemplo, a força ou a resistência.



































































































6. O processo de transformação através da força trabalho humano faz com que seja possível fazer de farinha, água e fermento um pão, e mais, o forno e todos os instrumentos que se usaram também eles, outros bens que ganharam uma utilidade diferente, e por isso, um valor diferente, de acordo com a necessidade que se coloca.

7. O caráter social do trabalho incorpora-se no ser social, na sua génese o material interage, está em movimento. A transformação de matérias-primas em diferentes bens interage historicamente 














​


















































































































































































8. Os acasos respondem a uma necessidade que os causa, a contingência representa uma necessidade relativamente aos fenômenos e às causas que os provocam. O acaso completa a necessidade mediante diversos traços, únicos no seu género.


















​
9. A letra a itálico refere-se a termos utilizados por José Barata Moura.






Picture
Proudly powered by Weebly
  • atual
  • Arquivo
  • Estatuto
  • Contactos