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​​​no Prémio Res Publica 2024
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DINIS SILVEIRA
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Dinis Silveira é mestrando em Economia Política pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e Professor Assistente Convidado de Economia e Desenvolvimento no Instituto Politécnico de Setúbal. Dedica-se ao estudo das transformações estruturais do capitalismo contemporâneo e do relacionamento entre Estado, mercados e as formações sociais. Tem trabalhado sobre temas como política monetária, distribuição do rendimento, financeirização e processos de integração europeia, articulando a crítica da economia política proveniente da tradição marxista com abordagens críticas contemporâneas. É membro da Associação Portuguesa de Economia Política e da Associação Frente Anti-Racista, procurando aproximar a reflexão teórica da intervenção prática.

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IMIGRAÇÃO E SUPER-EXPLORAÇÃO
– O CASO PORTUGUÊS
Dinis Silveira

INTRODUÇÃO
 
A imigração é, de há muito, um aspeto central da constituição económica global, instrumentalizada para responder às necessidades mercantis de força de trabalho flexível e embaratecida. Por isso, a análise das imigrações contemporâneas através dos conceitos de exploração, e particularmente de super-exploração, poderá indicar caminhos a percorrer, não somente na sua compreensão teórica, mas também na sua transformação prática, visando garantir a dignidade humana a todos, incluídos aos que, assombrados pelo quotidiano, se entregam ao desconhecido.

Neste ensaio, a exploração é conceptualizada como a extração e apropriação de mais-valia produzida pelo trabalho, na medida em que o salário pago ao trabalhador é, por norma, inferior ao valor por ele produzido (Marx, 1867). Sucessivamente, o conceito de super-exploração, com origem no trabalho do economista Brasileiro Ruy Mauro Marini (1973) expande esta compreensão da exploração a condições nas quais os trabalhadores são remunerados abaixo do valor da reprodução da sua força de trabalho, i.e., do valor de subsistência dos bens e serviços que permitem ao trabalhador a recuperação das suas capacidades físicas e mentais despendidas na atividade laboral, condições comummente testemunháveis no caso dos trabalhadores imigrantes.

Portugal, à luz deste enquadramento teórico, representa um importante estudo de caso. Ao longo das últimas décadas, Portugal tornou-se um destino comum para trabalhadores imigrantes, sendo uma parte significante da força de trabalho do país composta de trabalhadores migrantes, oriundos quer de antigas colónias portuguesas, como Cabo Verde, Angola, e Brasil, assim como trabalhadores da Europa de Leste, e mais recentemente, do Sudeste Asiático. Estes são maioritariamente empregues em setores de baixa intensidade tecnológica e onde predominam os baixos salários e condições laborais precárias, como a construção civil, a agricultura, a restauração, e o trabalho doméstico, refletindo padrões de segmentação laboral e social.

Entendida como uma intensificação da exploração do trabalho pelo pagamento de salários inferiores aos socialmente necessários para reproduzir a força de trabalho previamente empregue, a super-exploração é relevante para analisar a imigração em Portugal, na qual diversos fatores, nomeadamente o estatuto legal, a vulnerabilidade económica, e a discriminação racial suportam e potenciam os níveis de exploração a que indivíduos e grupos da classe trabalhadora em Portugal são sujeitos (Castles & Van Hear, 2011).

Além disso, em Portugal, a complexidade e dificuldade nos processos de regularização de trabalhadores sem documentos, empurram um conjunto cada vez maior de trabalhadores para um limbo legal que exacerba a posição precária dos mesmos no mercado de trabalho, e consequentemente, na sociedade. Assim entendida, a política migratória nacional possibilita a super-exploração dos trabalhadores imigrantes, na medida em que a ambiguidade das suas situações legais impede a efetivação das suas garantias constitucionais e direitos laborais.

Deste modo, o presente ensaio procura, através da articulação do conceito de exploração e da extensão conceptual da super-exploração analisar a situação laboral dos imigrantes em Portugal, procurando evidenciar as dinâmicas e os mecanismos através dos quais estes trabalhadores são super-explorados. Particularmente, pretende-se avaliar o papel desempenhado por imaginários repressivos e opressivos no sustento ideário da super-exploração dos imigrantes. Em última análise, este estudo de caso tem em vista a teorização de uma estratégia que radique na superação da exploração e opressão, iluminando algumas táticas e políticas que devem integrá-la, assim como direções para investigações futuras.

EXPLORAÇÃO E SUPER-EXPLORAÇÃO
 
N’O Capital (1867), Karl Marx sistematiza a inerência da exploração face à produção capitalista. Esta apropriação situa-se no centro do modo de produção capitalista, não se tratando somente de uma injustiça subjetiva. É antes, uma característica estrutural e estruturante das economias capitalistas (Harvey, 2019).

De acordo com a teoria do valor do trabalho, iniciada e desenvolvida por economistas clássicos como Adam Smith e David Ricardo, e completada por Marx, o valor de uma mercadoria é determinado pelo trabalho socialmente necessário à sua produção. Segundo esta teoria, o trabalho é a origem fundamental de todo o mais-valor. Por sua vez, o valor de cada bem corresponde ao tempo médio de trabalho nele incorporado ajustado ao nível produtivo e tecnológico da economia em questão, na medida em que “o trabalho é, não apenas a medida do valor, mas também a substância do valor” (Marx, 1867).

A exploração capitalista radica na mercadorização da força de trabalho, isto é, da capacidade do trabalho de produzir bens e serviços, uma mercadoria com o seu próprio valor, correspondente ao custo de reprodução social das capacidades físicas e mentais empregues pelo trabalhador no processo produtivo, por outras palavras, aos custos da sua subsistência que neste modo de produção têm como contrapartida formal o salário. Decorre que esta mercadoria tem uma particularidade, a de ser um valor que produz mais-valor, pelo que a exploração capitalista se origina na incongruência entre o valor da força de trabalho, mercadorizada e vendida pelo trabalhador ao detentor do capital despendido, e o valor do trabalho concretizado na produção.

Para compreender a extração e a apropriação privada da mais-valia produzida socialmente pelo trabalho, importa distinguir trabalho necessário de sobre trabalho, isto é, o tempo de trabalho no qual o trabalhador produz o valor correspondente ao da sua força de trabalho, isto é, ao valor dos bens e serviços que asseguram a sua subsistência e reprodução social, e o tempo de trabalho em que o trabalhador produz valor excedentário face ao valor pelo qual vendeu a sua força de trabalho, respetivamente. Este trabalho excedentário é então apropriado pelos capitalistas como mais-valia, na forma de acumulação de lucros (Marx, 1867).

Deste modo, a mais-valia representa a diferença entre o valor dos bens produzidos pelo trabalho e o valor pelo qual o trabalho foi contratado. Esta mais-valia constitui a origem primária da acumulação capitalista, pelo que, o capital pode ser definido como valor que se autovaloriza, através da contradição entre a aparência de igualdade entre o salário e o trabalho, e a essência desigual entre o valor pago ao trabalho e o valor por este produzido (Fine & Saad-Filho, 2016).

Enquanto valor que se autovaloriza, a natureza do capital impõe ao mesmo um imperativo último de contínua acumulação e expansão, a originar-se na esfera produtiva e a realizar-se através da sua comercialização.

Segundo Marx, a extração de mais-valia por parte do capital pode processar-se através de incrementos na mais-valia absoluta ou de desenvolvimentos na mais-valia relativa (Marx, 1867). O primeiro mecanismo respeita a extensões na duração da jornada de trabalho e portanto, na duração do tempo de trabalho excedentário no qual o trabalhador produz a mais-valia a ser apropriada. Alternativamente, no segundo mecanismo, o aumento da mais-valia resulta de aumentos na produtividade, que reduzem o tempo de trabalho socialmente necessário incorporado em cada mercadoria individual. Este mecanismo permite a continua expansão da extração de mais-valia sem se confrontar com os limites biológicos inevitáveis da extensão da jornada laboral. É, por isso, um mecanismo central no desenvolvimento do capitalismo (Cipolla, 2017).

Deste modo, o capital, “incansável, conduzido por uma sede insaciável por mais-valia”, motiva cada capitalista individual a reduzir os seus custos unitários, por modo a aumentar a lucratividade do seu capital (Marx, 1857). Para suster a sua participação no mercado, condição possibilitante da acumulação do capital e respetiva realização, os capitais individuais têm de ser continuamente orientados para a maximização do lucro.

Daí se origina um aparente paradoxo, no qual o incremento da composição orgânica do capital, isto é, o aumento da proporção do capital constante – maquinaria e tecnologia – face ao capital variável – trabalho – na produção, é responsável tanto pelo aumento da mais-valia relativa como pela queda tendencial da taxa de lucro. Uma vez que o lucro representa a corporização contabilística do valor pelo trabalho criado e por outrem apropriado, à medida que a proporção deste diminui face à maquinaria empregue no processo produtivo, diminui também a taxa de mais-valia, que representa a relação entre esta última e a totalidade do capital mobilizado no processo produtivo (Marx, 1867). No entanto, importa notar que o processo anteriormente descrito representa uma tendência, à qual se opõe um conjunto de contra tendências que, não impedindo a queda tendencial da taxa de lucro, podem retardá-la e/ou atenuá-la em dados momentos (Da Motta e Albuquerque, et al., 2015).

Um dos métodos adotados pelos capitalistas com vista a contrariar a queda tendencial da taxa de lucro sobre os seus capitais é o da super-exploração. Conceptualizada inicialmente por Ruy Mauro Marini em 1973, a super-exploração refere-se a uma transformação qualitativa nas relações sociais de produção, originando situações nas quais os trabalhadores recebem salários insuficientes para dar respostas aos custos básicos da reprodução da sua força de trabalho. Este método de apropriação de mais-valia constitui uma das características fundamentais das relações de dependência entre centros e periferias constituintes do capitalismo global (Marini, 1973).  

Segundo Marini, nas periferias económicas a exploração laboral excede os limites tradicionais baseados na remuneração através do salário do valor da força de trabalho. Este método de apropriação conjuga mecanismos absolutos e relativos de extração de mais-valia através da combinação de pelo menos três mecanismos dinâmicos: o prolongamento do dia de trabalho, a intensificação do dia de trabalho através da aceleração do processo produtivo e do trabalho propriamente dito, e a possibilidade de expropriar parte do trabalho socialmente necessário para a reprodução da classe trabalhadora (Burns, 2023; Valencia & Felix, 2023). 

Sendo a reprodução social comprometida devido à falta de condições materiais adequadas à recuperação da força de trabalho, a super-exploração não se refere somente a um agravamento quantitativo da exploração do trabalho, mas a uma degradação social, física e psicológica do trabalhador (Portes Virginio et al., 2023).

Por isso, esta conceptualização é central para compreender a subordinação a que as periferias económicas são sujeitas de modo ao capital sustentar o seu circuito de acumulação e expansão, evitando temporariamente a queda tendencial da taxa de lucro que caracteriza as economias capitalistas. É então possível depreender a significação não acidental deste método de exploração, relevando a sua dimensão de necessidade à luz dos imperativos existenciais e reprodutivos do capital (Marini, 1973). 

No entanto, importa notar como os conceitos de centro e periferia são tradicionalmente considerados a partir de distinções geográficas baseadas em padrões hierárquicos de desigualdade estabelecidos entre regiões. Esta distinção evidencia como o capitalismo organiza o espaço em relações entre nações, que perpetuam nexos de desigualdade e dependência entre si. Apesar de útil, uma conceptualização somente geográfica pode ser limitante. Para alargar o alcance analítico das categorias de centro e periferia económica, estas devem ser conceptualizadas a partir das relações de subordinação da periferia ao centro nas quais as dinâmicas de desigualdade e dependência se aprofundam continuamente.

Neste sentido, relações entre centro e periferia podem manifestar-se no interior de uma nação, no sentido em que certas regiões ou grupos são sistematicamente subordinados aos centros económicos dominantes. Esta redefinição da origem conceptual de centro e periferia económica permite considerar a existência de periferias internas, nas quais populações marginalizadas – nomeadamente as populações e comunidades imigrantes – são sistematicamente sujeitas a métodos de super-exploração análogos aos praticados nas regiões consideradas periféricas pela literatura tradicional da dependência económica.

REPRODUÇÃO SOCIAL
DA FORÇA DE TRABALHO E O SEU VALOR

 
O valor da força de trabalho não é estático nem naturalmente determinado. É antes uma construção histórica, influenciada por fatores socioeconómicos, políticos e culturais. N’O Capital, Marx define o valor da força de trabalho como equivalente ao valor das mercadorias necessárias à subsistência do trabalhador e da sua capacidade para o trabalho. No entanto, estas necessidades não são somente naturais, variando de acordo com o desenvolvimento social (Marx, 1867).

Nas sociedades capitalistas avançadas o nível de subsistência de um trabalhador inclui os custos da sua educação, saúde, e segurança social, em parte resultado de disputas políticas entre interesses antagónicos ao longo dos séculos, em parte resultado de um reconhecimento por parte do capital do benefício da capacitação humana como recurso promotor da produtividade integrado numa divisão internacional do trabalho estratificada. Pelo contrário, nas economias consideradas periféricas por Marini, o valor da força de trabalho é ainda frequentemente limitado à subsistência básica, à satisfação das necessidades fisiológicas dos trabalhadores, desconsiderando o acesso a infraestruturas sociais mais abrangentes, das quais depende a satisfação de um vasto conjunto de necessidades sociais.

Assim, o valor da força de trabalho é um produto histórico, definido não apenas por fatores económicos, mas também por conflitos políticos, disparidades geográficas, e variações culturais. Partindo desta noção, a análise de Marini evidencia como o valor da força de trabalho é mantido artificialmente abaixo do seu potencial nas periferias económicas, e como a prática da remuneração da força de trabalho a valores inferiores aos estabelecidos por este limiar mínimo histórico condicionam e constituem as desigualdades globais, integradas nos imperativos da valorização do capital através da minimização do custo social de reprodução do trabalho (Marini, 1973).

A reprodução social, teorizada contemporaneamente por Tithi Bhattacharya, refere-se aos processos através dos quais a força de trabalho se sustenta. Estes processos englobam variadas atividades e recursos, como a educação, a saúde, o trabalho doméstico, e o cuidado. No modo de produção capitalista a reprodução social da força de trabalho é comumente subvalorizada, subsidiando a economia produtiva através do garante da força de trabalho necessária aos processos produtivos a custos mínimos (Bhattacharya, 2017).

Na medida em que é hegemonicamente considerada uma responsabilidade pessoal e ou familiar, a reprodução social representa um subsídio encoberto ao capital. A política social e económica prosseguida pela vasta maioria dos governos nas últimas décadas, de privatização e desmantelamento de unidades estatais encarregues da providência de bens e serviços sociais, tem contrariado a tendência anterior à adoção desta política, reforçando a transferência de custos reprodutivos para a esfera individual, familiar e comunitária. Daí resulta uma erosão das estruturas essenciais de suporte à reprodução da força de trabalho, particularmente em comunidades marginalizadas (Bhattacharya, 2017).

Assim sendo, a reprodução social não é somente um processo económico, tendo também um conjunto de fatores sociais e políticos que presentemente reforçam a tendência da subvalorização do trabalho essencial à manutenção da força de trabalho. Desta forma, o capital origina, reforça e perpetua as estratificações de género, raça e classe ao desvalorizar o trabalho reprodutivo desempenhado desproporcionalmente por mulheres e grupos marginalizados. Em suma, esta desvalorização do trabalho reprodutivo sustém e potencia a acumulação do capital ao suster o baixo valor de troca da força de trabalho, enquanto simultaneamente extrai trabalho reprodutivo não remunerado às unidades familiares e comunitárias (Bhattacharya, 2017).

Efetuada através de variados mecanismos, a super-exploração, ao intensificar a pobreza, limitar o acesso a serviços sociais por parte de grupos marginalizados, reforça a privação material dos trabalhadores e a dependência da sua subsistência face a trabalho reprodutivo não remunerado (PORDATA, 2023). Assim, é acentuada a característica central do trabalho de reprodução social, a exploração encoberta que subsidia o capital ao cobrir parte dos custos formais necessários à disponibilização sistemática da sua força de trabalho para uso economicamente produtivo.
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Deste modo, a super-exploração do trabalho produtivo interage com as hierarquizações e estratificações sociais constituídas em torno das categorizações de género, raça e classe, representando um duplo reforço da exploração no modo de produção capitalista, tanto no que respeita à produção como a redução do ser social. Como articulado por Marini (1973): 
“A super-exploração do trabalho em nações periféricas não é somente um fenómeno económico, mas um [fenómeno] sustentado por construções ideológicas que desumanizam o trabalhador e justificam formas extremas de repressão salarial”. 
Historicamente, estas narrativas ideológicas enquadram os trabalhadores periféricos como naturalmente orientados para suster níveis de vida inferiores, justificando assim a supressão salarial e a circunvalação da legislação laboral, caracterizantes da super-exploração. Estes imaginários ideológicos encontram-se profundamente imersos em estereótipos culturais e raciais, nos quais o trabalho não-europeu é socialmente considerado sub-humano e, então, moralmente legítimo de ser explorado (Bhattacharya, 2018). Através dos processos coloniais e, subsequentemente, da emergência do capitalismo como modo de produção globalmente dominante, estas narrativas institucionalizaram-se, continuando a informar as atitudes contemporâneas face ao trabalho periférico, mesmo quando não manifestadas explicitamente.

Nos centros económicos, esta superestrutura é reforçada por narrativas nacionalistas e xenófobas que percecionam os imigrantes como uma ameaça à força de trabalho nativa, apresentando em simultâneo os primeiros como menos empenhados em trabalhar. Esta narrativa contraditória, na qual os imigrantes são percecionados simultaneamente como uma ameaça e como naturalmente menos dedicados ao trabalho e, portanto, merecedores de salários inferiores, resulta no isolamento dos trabalhadores periféricos da restante da classe trabalhadora, impedindo o desenvolvimento de solidariedades que, firmando-se, poderiam desafiar as práticas de super-exploração e de exploração na sua totalidade.
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Para os trabalhadores imigrantes de periferias económicas integradas geograficamente nos centros económicos estes imaginários ideológico originam uma dupla valorização da força de trabalho, na qual os trabalhadores nativos e os imigrantes são tratados de forma fundamentalmente diferente apesar de realizarem trabalho semelhante. Esta estratificação normaliza e aprofunda a crença nas necessidades inferiores dos imigrantes para a sua subsistência. Sucessivamente, a sua remuneração abaixo do nível de subsistência é justificada. De acordo com Bhattacharya (2018), 
“O mito da resiliência inerente do trabalhador migrante, capaz de ultrapassar qualquer dificuldade e de viver com menos, é uma adaptação contemporânea da ideologia colonial que via os sujeitos colonizados como requerendo menos para o seu bem-estar que os colonizadores Europeus”. 
Posteriormente, as mesmas narrativas ideológicas de caráter repressivo e opressivo são adotadas por parte de autoridades governamentais que, ao serviço dos imperativos do capital, institucionalizam a repressão salarial e limitam o acesso dos trabalhadores das periferias económicas aos seus direitos e proteções. Esta exclusão legal compõe a exclusão ideológica, reforçando mutuamente a posição hierárquica subserviente dos trabalhadores periféricos, reproduzindo dentro de fronteiras nacionais a estratificação caracterizante da divisão internacional do trabalho.

IMIGRAÇÃO ENQUANTO SUPER-EXPLORAÇÃO 

A super-exploração dos imigrantes processa-se através da extração de mais-valia para além do valor da força de trabalho, isto é, na remuneração do trabalho prestado pelos imigrantes a um valor inferior ao do conjunto de bens e serviços socialmente considerados essenciais à produção e reprodução social da força de trabalho (Pröbsting, 2015). Geralmente, os imigrantes auferem salários inferiores aos dos trabalhadores nativos e laboram em condições menos dignas, devido a políticas que restringem os direitos e limitam a capacidade organizativa dos trabalhadores imigrantes.

Para tal, é promovida uma narrativa ideológica que prevê uma maior aptidão natural dos imigrantes para o trabalho físico, que legitima a reprodução fossilizada da divisão internacional do trabalho dentro de fronteiras nacionais, na qual a estratificação em função do país de origem atribui uma posição aos imigrantes nos processos caracterizada pelo pagamento de salários inferiores à média nacional e, nalguns casos inferiores aos dos próprios trabalhadores nativos empregues nos mesmos setores e a exercer o mesmo trabalho, pela intensificação do trabalho para além do fisiologicamente razoável, e pela extensão do horário laboral para além do verificado para os trabalhadores de origem nacional.

No entanto, a super-exploração não se processa somente através de mecanismos integrados na esfera produtiva do viver. Também na esfera da reprodução social, integrando serviços essenciais à vida humana como a habitação, a saúde, a educação, e a segurança social, a super-exploração se processa. Para os trabalhadores imigrantes, o acesso a estes serviços encontra frequentemente entraves severos.

Do conjunto destes serviços sociais, o do acesso à habitação representa um mecanismo crítico da super-exploração. Os imigrantes habitam frequentemente em residências temporárias, com falta de condições de higiene e segurança, e sobrelotadas que, mesmo assim, absorvem parte significante dos seus salários. Segundo casos de super-exploração de trabalho imigrante previamente estudados, é comum a residência de imigrantes em habitações informais providenciadas pelos empregadores e caracterizadas pelo número desadequado de pessoas que nelas residem e pelas parcas condições sanitárias, das quais resultam a deterioração das condições de saúde destes trabalhadores (Jain & Sharma, 2018; Portes Virginio et al., 2023).

Também o acesso à saúde e à educação se encontram severamente restritos aos imigrantes. Esta dinâmica de exclusão social, assente na falta de documentação e/ou de estatuto legal que integre o acesso aos serviços de saúde pública e de educação em escolas locais, compõe os custos de reprodução social impostos aos trabalhadores imigrantes. Mais, a super-exploração assente na responsabilização individual e/ou comunitária da reprodução social acarreta impactos inter-geracionais, reproduzindo as dinâmicas de pobreza relativa e absoluta e de marginalização que em primeiro lugar coloca estes trabalhadores numa posição de vulnerabilidade passiva de sujeição a super-exploração (Pröbsting, 2015).

​A SUPER-EXPLORAÇÃO
DOS IMIGRANTES EM PORTUGAL
 
A SUPER-EXPLORAÇÃO
NA ESFERA PRODUTIVA DO VIVER

 
Em Portugal, a prática de super-exploração do trabalho imigrante deve ser matéria de particular atenção na atualidade. Uma análise da situação laboral dos imigrantes através deste enquadramento conceptual revela os mecanismos estruturais que resultam na exploração desproporcional dos trabalhadores imigrantes em Portugal, tanto na esfera da produção como na da reprodução social do viver.

Retomando uma das características da super-exploração apontadas por Marini (1973), o prolongamento da jornada de trabalho, verificamos que em Portugal os imigrantes frequentemente trabalham um número de horas significativamente superior às dos trabalhadores nativos (Reis De Oliveira, 2023:170). Particularmente nos setores da agricultura e do turismo, da construção e do trabalho doméstico, nos quais o trabalho imigrante assume grande prevalência, os trabalhadores excedem frequentemente os limites legais à jornada diária de trabalho (Reis De Oliveira, 2023:171).

A intensidade do trabalho é também reforçada para os trabalhadores imigrantes. Para além das características endógenas dos setores produtivos nos quais o trabalho imigrante é mais prevalente, que por si mesmas significam uma maior intensidade física do trabalho, é prática corrente a alocação dos imigrantes às tarefas mais desgastantes e intensas dentro de cada setor. Reflexo desta prática, as estatísticas relativas à frequência de acidentes no trabalho revelam uma maior ocorrência destes nos trabalhadores imigrantes (Reis De Oliveira, 2023:174).

Também a disparidade salarial se revela no contexto português como mecanismo possibilitador e potenciador da super-exploração dos imigrantes, sendo notória uma discrepância negativa entre os salários auferidos por trabalhadores imigrantes e trabalhadores portugueses nas mesmas funções, sobretudo nas atividades nas quais a força de trabalho imigrante assume maior prevalência (Reis De Oliveira, 2023:163). Ainda que a sua quantificação não seja possível, o expectável será que esta prática se agrave no caso dos trabalhadores cuja situação legal se encontra irregular e que, por isso, encontram maiores entraves na sua proteção laboral e poder negocial junto do empregador.

No entanto, a disparidade salarial entre trabalhadores imigrantes e nativos, assim como o confinamento dos primeiros a trabalhos de baixa remuneração não se processam somente de forma explícita, assumindo frequentemente uma forma alienada, na qual a estratificação e segregação setorial a que os imigrantes são sujeitos é apresentada como produto de características naturais e culturais dos imigrantes, e não como parte integrante de uma estratégia por parte do capital de reprodução da divisão internacional do trabalho dentro de fronteiras nacionais, através da formação de periferias internas.

A segregação setorial dos imigrantes para setores produtivos de baixo rendimento de grande risco e desgaste físico e psicológico, é uma característica determinante da super-exploração em Portugal. Setores como o da agricultura, da construção, e do trabalho doméstico empregam um número desproporcional de imigrantes, comummente em condições agravadas face aos trabalhadores nativos nos mesmos setores, nomeadamente no respeitante à sazonalidade do trabalho, às condições de segurança, e ao acesso aos benefícios sociais legalmente previstos (Reis De Oliveira, 2023:153).

Esta segregação alienada, isto é, encoberta pela forma da relação laboral e testemunhável apenas no seu conteúdo, estabelece-se e desenvolve-se a partir de condições estruturais implícitas, como os requerimentos de proficiência linguística, as limitações impostas ao reconhecimento de credenciais educativas e o recurso a práticas contratuais discriminatórias.

Contudo, a super-exploração dos imigrantes não se limita a mecanismos e relações formalmente ocultas, assumindo também importância os fenómenos explícitos de super-exploração, frequentemente em incumprimento tanto face ao Código do Trabalho (CT) e à Constituição da República Portuguesa (CRP), assim como a incapacidade, politicamente orquestrada, das agências públicas responsáveis de tais matérias e do Estado Português de fiscalizar os locais de trabalho suspeitos de tais práticas ilegais, de regular os vínculos laborais dos trabalhadores imigrantes e sancionar estas práticas criminosas. Segundo relatos da movimento Vida Justa, o não pagamento de salários, os despedimentos sem justa causa, e a negação de direitos laborais básicos são práticas correntes às quais os imigrantes são sujeitos em Portugal (Nunes, 2024). Estas práticas são ainda facilitadas pelo desconhecimento dos imigrantes face aos seus direitos – constitucionais e laborais – pelo uso recorrente de chantagem por parte das entidades empregadoras, pelo receio de deportação dos imigrantes, e pelo desgaste – económico e social – associados aos processos judiciais em Portugal.

Daqui se depreende a importância de insuficiências e ineficiências institucionais que caracterizam a política de acolhimento da imigração de Portugal e que perpetuam a super-exploração do trabalho imigrante.

Atualmente, a Agência para as Migrações e Asilo (AIMA), responsável pelo processamento das solicitações de títulos de residência, encontra-se profundamente subfinanciada, resultando numa insuficiência de meios humanos e técnicos que possibilitem a regularização atempada dos títulos de residência dos imigrantes em Portugal. Sem a devida regularização, os imigrantes são sujeitos à super-exploração e à chantagem do empregador, devido ao receio de possíveis consequências advindas da comunicação às autoridades competentes de práticas laborais ilegais e da organização laboral com vista à superação destas práticas.  

Também a recente revogação da manifestação de interesse, que permitia aos imigrantes a entrada em Portugal e o requerimento de um título de residência legal aquando da procura por emprego, reforça as insuficiências e ineficiências da política migratória portuguesa, sendo expectável que produza resultados perversos face aos expressos pelos proponentes desta alteração legislativa (Nunes, 2024). O fim da manifestação de interesse não deverá limitar significativamente a imigração dita ilegal, mas poderá, pelo contrário, exacerbar os riscos associados à imigração ao restringir os canais legais de entrada de imigrantes e reforçar o papel das redes ilegais de tráfico humano na entrada de pessoas em Portugal. 

Por fim, também a desadequação de meios da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), face à significação desta Autoridade, particularmente num contexto de crescentes fluxos migratórios dirigidos a Portugal, permite a proliferação de práticas laborais de super-exploração. De acordo com a própria Autoridade, os constrangimentos a nível dos recursos disponíveis representam um dos maiores entraves à realização da fiscalização de locais de trabalho sinalizados como de elevado risco (Ferreira, 2021).

 Em suma, a super-exploração dos trabalhadores imigrantes em Portugal na esfera produtiva do viver processa-se através de mecanismos variados, para além daqueles originalmente identificados por Marini (1973) na sua teoria da super-exploração. Estes mecanismos são de origem económica, institucional e legal, manifestando-se quer de forma explícita, através do incumprimento da lei, quer de forma implícita, através da articulação entre práticas segregacionistas e condicionantes estruturais, ambas sustentadas em narrativas equivocadas acerca das características naturais e culturais dos imigrantes, elas próprias frutos de imaginários ideológicos repressivos e opressivos, como será discutido adiante.

A SUPER-EXPLORAÇÃO
NA ESFERA REPRODUTIVA DO VIVER


No entanto não só de mecanismos atuantes na esfera produtiva é a super-exploração dos imigrantes em Portugal constituída, assumindo a exclusão do acesso a serviços sociais e bens essenciais no que respeita à esfera reprodutiva do viver uma forma significativa de reduzir o salário social considerado representativo de um limiar mínimo de subsistência face às necessidades dos imigrantes em Portugal.

O acesso à habitação é atualmente um dos exemplos mais gravosos da exclusão e marginalização dos imigrantes em Portugal. É prática corrente a vivência de imigrantes em condições muito inferiores ao padrão nacional, particularmente no caso dos trabalhadores agrícolas e do setor da construção. Os imigrantes vivem frequentemente em habitações sobrelotadas e com condições de segurança e de higiene desadequadas, situação agravada pelos contratos de arrendamento precário através dos quais acedem à habitação e que os expões a práticas abusivas por parte dos senhorios (Observatório das Migrações, 2022). A privação de habitação acessível empurra muitos imigrantes para habitações informais, com carência de infraestruturas básicas, exacerbando assim os riscos para a  saúde, segurança  e inclusão social. Estes constrangimentos habitacionais, profundamente enraizados em práticas discriminatórias de acesso à habitação e desresponsabilização por parte do Estado, normalizam um acesso precário à habitação por parte dos imigrantes face ao padrão estabelecido para os cidadãos nacionais, reforçando assim a sua sobre-exploração.

Também no acesso à saúde, apesar da inclusividade do Sistema Nacional de Saúde (SNS), existem dificuldades impostas aos imigrantes, nomeadamente no que respeita à falta de intérpretes disponíveis, aos processos burocráticos no acesso, e a certos estigmas existentes relativamente à saúde dos imigrantes, realidade parcialmente traduzida no mais de 500 mil estrangeiros residentes em Portugal que não inscritos no SNS  (Observatório das Migrações, 2022). Estas dificuldades demonstram também como o acesso aos cuidados de saúde é desigual, impondo custos sociais e financeiros adicionais aos trabalhadores imigrantes face aos trabalhadores nativos.

À semelhança do acesso à saúde, também o acesso à educação pública em Portugal por parte dos imigrantes é teoricamente universalmente garantido. Não obstante, subsistem algumas dificuldades, sobretudo no aproveitamento educativo dos dependentes de trabalhadores imigrantes, na medida em que a escassez de meios no Ensino Público força frequentemente à agregação de alunos em diferentes níveis de aprendizagem nas mesmas turmas, como ocorre na disciplina de Português Língua Não-Materna (Observatório das Migrações, 2022). No entanto, os entraves no acesso à educação por parte de imigrantes manifestam-se sobretudo no programas de treino vocacional de trabalhadores, enraizando mais profundamente a dependência dos imigrantes a trabalhos pouco especializados e, consequentemente, mal remunerados.

Por último, e apesar da universalidade do sistema português de Segurança Social (SS), o condicionamento da atribuição de benefícios a um título legal de residência, num contexto em que se acumulam na ordem das centenas de milhares os pedidos deste título em atraso devido à falta de recursos na AIMA, como discutido anteriormente, exclui muitos imigrantes dos benefícios que são seus por direito, apesar de contribuírem para o financiamento da SS. Ademais, a prevalência de situações laborais irregulares entre os imigrantes, nomeadamente o trabalho temporário, sazonal e ocasional, impede uma parte significativa desta força de trabalho de aceder aos seus benefícios da SS, por incumprimento das condições de acesso aos mesmos, como os prazos de garantia (Criap, n.d.). Esta exclusão compõe os encargos com a reprodução social dos imigrantes às suas esferas individuais, familiar, e comunitárias, representando assim uma outra força repressiva no salário social destes trabalhadores.

Deste modo, a super-exploração na esfera reprodutiva do viver articula-se e reforça-se duplamente. Por um lado, os custos da reprodução social dos imigrantes são externalizados do circuito de acumulação do capital através dos entraves no acesso a serviços sociais essenciais, representando efetivamente uma desresponsabilização do capital que contrata esta força de trabalho e do Estado que, segundo o CT e a CRP tem a obrigação de fazer cumprir os direitos dos trabalhadores imigrantes. Por outro lado, o próprio limiar mínimo de reprodução social considerado hegemonicamente aplicável aos trabalhadores imigrantes é reduzido face ao seu homólogo para os trabalhadores nativos, legitimando assim as insuficiências e as carências que caracterizam o viver dos imigrantes em Portugal.

A SUSTENTAÇÃO IDEÁRIA DA SUPER-EXPLORAÇÃO
 
Para além dos mecanismos materiais da super-exploração, respeitantes às esferas produtiva e reprodutiva do viver social, a super-exploração carece duma sustentação ideária, duma superestrutura que legitime e promova a prática económica e social da super-exploração dos imigrantes em Portugal. Parte central deste ideário são os imaginários ideológicos de caráter repressivo e opressivo que, partindo de preconceitos naturais e culturais relativamente aos imigrantes, desumanizam estes últimos e, por sua vez, tornam socialmente aceitável a super-exploração destes grupos marginalizados.

No caso português, a raiz destes imaginários encontra-se no passado colonial do país, ainda que contemporaneamente estes sofram uma reconfiguração consoante os imperativos económicos da fase atual do capitalismo global. O império colonial português, um dos mais antigos e mais duradouros na história europeia, providencia uma fonte crucial da qual as narrativas e atitudes atuais face à imigração se embriagam. Durante a época colonial, narrativas de superioridade racial – combinando aspetos considerados científicos à época e outros de vertente cultural – legitimavam a hierarquia social construída na metrópole e nas colónias, hierarquia essa baseada na exploração dos povos colonizados.

Desde a sua origem estas narrativas contêm na sua génese aspetos contraditórios, principalmente o posicionamento simultâneo dos povos não-europeus como inerentemente inferiores, ociosos, e como trabalhadores resilientes, naturalmente predispostos para trabalhos desgastantes e com condições, remuneratórias e de segurança, desadequadas aos povos europeus (Arastu, 2024; Maronitis & Pencheva, 2022).

Contemporaneamente, prolongam-se os ecos destas narrativas, tanto discursivamente como na prática. Assim, o passado colonial de Portugal deve ser compreendido dialeticamente, como um presente que se reinventa continuamente, através da adaptação das práticas segregadoras e exploratórias aos imperativos do modo de produção de cada fase do movimento histórico. Atualmente, estes imaginários ideológicos encontram-se portanto enquadrados sobre a estrutura económica do capitalismo global, sendo principalmente constituídos por preconceitos racistas e xenófobos, enquadrados culturalmente.

Os imigrantes são apresentados como incompatíveis face à cultura europeia, sendo assim posicionados hierarquicamente abaixo dos povos europeus, justificando deste modo a sua super-exploração. Este enquadramento culturalista desloca a análise das mazelas sociais e económicas impostas aos imigrantes das suas condicionantes estruturais para pressupostas deficiências sociais e éticas dos imigrantes face à população nativa (Almeida, 2019).

Também a contradição da apresentação simultânea dos imigrantes como ociosos e, por isso dependentes dos benefícios atribuídos pela segurança social, mas também naturalmente predispostos ao trabalho árduo, do que resulta a retirada de ofertas de emprego aos trabalhadores portugueses e a depressão geral dos níveis salariais,  prolonga-se até à nossa época. Este estereótipo cumpre uma dupla função. Se por um lado demoniza os imigrantes ao atribuir-lhes características parasitárias, por outro vilifica-os enquanto indivíduos supercompetitivos, alimentado deste modo o ressentimento entre os trabalhadores nativos face aos seus pares imigrantes.

Por sua vez estes imaginários ideológicos são amplificados pela normalização de manifestações explícitas de racismo e xenofobia, o que no caso português tem ocorrido nos últimos anos, resultado da institucionalização de forças políticas  reacionárias. Estas forças, aproveitando-se das inseguranças económicas e ansiedades culturais contemporâneas, promovem uma narrativa de culpabilização dos imigrantes pelos mais variados problemas sociais e económicos em Portugal.

Em última análise, destes fenómenos resulta o movimento caracterizante dos imaginários ideológicos opressivos e repressivos que sustêm ideologicamente a super-exploração dos imigrantes, movimento que, nas suas contradições histórias, se renova e transforma de forma continuada, ainda que mantendo traços gerais que radicam na história colonial da Europa em geral e de Portugal em particular.

Tais imaginários servem propósitos que se articulam e reforçam mutuamente. Primeiro, promovem divisões no seio da classe trabalhadora, impossibilitando qualquer esforço coletivo da totalidade desta classe com vista à transformação social e económica da produção e reprodução do viver social. Segundo, estas narrativas legitimam e justificam relações laborais de super-exploração, ao desumanizarem os imigrantes e representarem-nos como desmerecedores de tratamento semelhante ao socialmente aceitável para os trabalhadores nativos, quer através da sua bestialização, quer através da naturalização da sua exploração.

CONCLUSÃO
 
O trabalho imigrante, como argumentado ao longo do presente ensaio, encontra-se sujeito a formas reforçadas de exploração, tanto na esfera produtiva como na reprodutiva do viver social, sendo remunerado aquém do valor consensualizado para a força de trabalho nos países de destino, isto é, aquém do valor dos bens e serviços considerados necessários à reposição da força de trabalho gasta em processos produtivos anteriores.  

A super-exploração dos imigrantes apresenta assim uma dupla natureza, fruto direto da relação laboral a que os imigrantes se encontram sujeitos, mas também produto indireto da desvalorização das necessidades dos imigrantes no respeitante à reprodução social, nomeadamente no acesso à habitação, à saúde, à educação e à segurança social.

Para mais, estas dinâmicas são sustentadas e justificadas por imaginários ideológicos de caráter opressivo e repressivo, refletindo assim condicionantes estruturais mais amplas e profundas, interligadas à trajetória histórica de Portugal e ao seu posicionamento atual no capitalismo global.
Importa, portanto, destacar que a prática da super-exploração do trabalho imigrante não é uma condição acidental e, muito menos é uma inevitabilidade histórica. Tanto na sua estrutura económica e social, assim como na superestrutura ideológica que sobre ela se ergue, a super-exploração dos imigrantes é resultado da lógica do capital, do seu circuito de acumulação e das contradições que carrega na sua génese que historicamente se revelam.

Neste processo assumem particular importância as narrativas hegemónicas que promovem uma idealização do imigrante enquanto contribuidor indispensável para o crescimento económico e como elemento exógeno à sociedade em que labuta e, por isso, desmerecedor da proteção e dos direitos aplicáveis aos nativos da nação em questão. A formulação destes imaginários ideológicos tal como a sua projeção política e mediática, escondem as causas estruturais da desigualdade, enquadrando as dificuldades vividas pelos imigrantes como fruto de deficiências pessoais e culturais, associadas à sua identidade racial e/ou étnica.

Em Portugal, a super-exploração processa-se por variados mecanismos. Na esfera produtiva, os imigrantes encontram-se sobre representados no trabalho informal e irregular, no qual se tornam adicionalmente vulneráveis a práticas de abuso, roubo salarial, e parcas condições de trabalho. Complementariamente, na esfera reprodutiva os imigrantes encontram entraves no seu acesso aos serviços públicos, como a saúde e a educação e, frequentemente toleram condições de vida indignas. Juntos, os mecanismos de super-exploração perpetuam um ciclo de vulnerabilidade e marginalização, garante da contínua precarização dos imigrantes e, por conseguinte, sujeição à super-exploração.

Assim sendo, o corolário da presente análise passará necessariamente por urgentes intervenções políticas, com vista à transformação de aspetos estruturais e superestruturais indispensáveis à super-exploração dos imigrantes em Portugal e, de forma mais geral, no mundo. Primeiro, a efetiva aplicação das proteções laborais existentes é crítica, incluindo desde logo a garantia de salários justos, a regulação das jornadas diárias de trabalho, e a fiscalização dos locais de trabalho suspeitos de práticas ilegais associadas à super-exploração dos imigrantes. Há ainda passos centrais a dar na garantia igualitária do acesso de imigrantes a serviços sociais, garantindo assim a valorização do salário social destes trabalhadores. É também necessário reforçar as vias de imigração legal, assim como dos processos de regularização, reduzindo a exposição dos imigrantes a práticas de super-exploração.  

Por fim, Portugal deve promover uma reflexão radical em torno do seu presente modo de produção e reprodução social do viver, assim como do seu posicionamento no capitalismo global, abordando particularmente a trajetória portuguesa no respeitante à proteção laboral e à providência pública e universal de bens e serviços sociais. No entanto, a significação deste esforço reflexivo reside nas possibilidades transformadoras que ilumina, possibilidades cuja concretização urge. 
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REFERÊNCIAS
 
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