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JOÃO SOARES
Nasceu em Lisboa em 1949, filho de Mário Soares e de Maria Barroso. Cedo de envolveu nos movimentos estudantis de oposição à ditadura, primeiro no liceu e depois na Faculdade de Direito de Lisboa, sendo membro do Partido Socialista desde a sua fundação em 1973. A seguir ao 25 de abril fundou com Víctor Cunha Rego a editora Perspectivas & Realidades (P&R), de que ainda hoje é proprietário. Aliás, apesar dos diversos cargos políticos que ocupou, é como editor literário de profissão que se apresenta. Foi deputado à Assembleia da República entre 1987 e 1990, e, novamente, nas legislaturas iniciadas em 2002, 2005 e 2009. Foi igualmente deputado ao Parlamento Europeu, de 1994 a 1995. Foi Presidente da Câmara de Lisboa entre 1995 e 2002 e Ministro da Cultura do primeiro governo de António Costa. 


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“O PS FOI SEMPRE UM PONTO DE EQUILÍBRIO
​À ESQUERDA E CONTINUA A SER”

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João Soares

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Porquê o Partido Socialista?

Os ideais do Partido Socialistas são aqueles que eu sempre tive para mim como os melhores para o mundo em que vivemos. É verdade que eu, de um certo ponto de vista, por razões que são compreensíveis, pela proximidade pessoal não apenas familiar com muitas das pessoas que estiveram na origem do Partido Socialista, tive sempre um caminho um bocado facilitado. A generalidade da minha geração, aquela que teve atividade contra a ditadura no movimento estudantil, no meu caso liceal e depois universitário na Faculdade de Direito de Lisboa, pertenceu às correntes comunistas, que a partir de meados dos anos 60 já tinham várias linhas. Até à dissidência pró-chinesa do Partido Comunista nos anos 60, que tem a ver também com a situação internacional, o que havia era o Partido Comunista e a geração dos meus pais teve toda próxima do Partido Comunista. Evidentemente que a proximidade com os meus pais e com os amigos dos meus pais e a biblioteca lá de casa vacinaram-me em relação a qualquer deriva desse tipo, mas a esmagadora maioria dos meus amigos dessa altura foram ou do PC ou do MRPP ou daquelas correntes maoistas que havia.

O PS, assumindo a velha tradição social-democrata que vem do Antero de Quental, que não tem nada que ver com a fundação do partido no final do século XIX, retoma uma corrente que se revê na família europeia e cujo grande símbolo para a minha geração era e continua a ser o Willy Brandt e a social-democracia alemã.

O PS foi sempre um ponto de equilíbrio à esquerda e continua a ser e é nessa tradição que eu me revejo.
 
Como foi a sua adesão ao PS?

Eu não fui à Alemanha, estava em Paris com a minha irmã. Os meus pais foram para a Alemanha e nós sabíamos bem o que é que eles lá iam fazer. E até ficámos com uma missão que foi mandar um telegrama para o Porto, porque tinham sido feitas várias manobras de distração, as pessoas que foram à Alemanha tinham bilhetes por vários lados para não parecer que iam todas para o mesmo sítio. Mas eu aderi logo a seguir ao 25 de Abril, se bem que na altura não se aderia formalmente a coisa nenhuma. Não estou a dizer que nasci dentro do PS, não é nenhum privilégio, o PS é um partido republicano. Mas formalmente inscrevi-me na cooperativa que havia na Duque de Ávila, que foi a primeira sede do PS. Depois, a Junta de Salvação Nacional deu uma sede a cada partido que tinha existência antes do 25 de Abril e o PS ficou com as instalações que tinham sido da censura ao cinema em São Pedro de Alcântara.
 
Na sua opinião, qual foi o contributo mais importante do PS para a democracia portuguesa?
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Deu um contributo decisivo. Soares e Zenha deram um contributo absolutamente decisivo, antes e depois [do 25 de Abril]. Têm um palmarés de resistência, com cadeias e com bom porte na polícia, que é outra coisa também muito importante. O Zenha esteve mais tempo preso do que o meu pai, mas foi menos vezes preso. O meu pai esteve 13 vezes preso, tudo somado dá para aí quatro anos e tal, o Zenha acho que chegou aos cinco [anos de prisão]. Eles dão ali um contributo muito importante e isso foi logo identificado pela população. O povo não conhecia, tinha umas referências: o Cunhal, o Soares, depois começou a aparecer o Sá Carneiro, mas só no pós-25 de Abril, [surgirão figuras] de ainda algum compromisso com o regime que são os liberais. Os exilados eram os mais importantes das forças políticas. O meu pai é o primeiro que chega [a seguir ao 25 de Abril] e vem de comboio. Ele chega com dois dias de antecedência em relação ao Cunhal e partiu de Paris com 24 horas de antecedência. Ele foi o que teve mais confiança - também porque havia contacto já com os militares e com umas correntes através do grupo que estava no [jornal] República. Foi, aliás, onde eu passei o dia 25 de Abril, ali à volta do República. Foi o primeiro jornal, saiu às três ou às quatro da tarde do dia 25 de Abril com uma tarja vermelha a dizer “Este jornal não foi à censura”. Eu assisti à discussão entre o [Raul] Rego, o Zenha e o Gustavo Soromenho sobre se mandavam [o jornal] à censura ou não. Houve ali alguma ponderação.
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“O PS tem de estar à altura dos desafios que se nos colocam e os desafios são múltiplos. Passam, em primeiro lugar, por sermos capazes de existir, isto é, no sentido de refletir, construir, readaptar aquilo que são os valores fundamentais da social-democracia.”

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Olhando para estes 50 anos, quer destacar outros marcos importantes do PS para a consolidação da democracia?

Logo o primeiro Governo Constitucional. Quer o Soares, quer o Zenha estavam no primeiro Governo Provisório e isso foi fundamental. O Zenha foi Ministro da Justiça e negociou com o Vaticano a revisão da Concordata. O meu pai foi o primeiro Ministro dos Negócios Estrangeiros que abriu as portas europeias e não só.  E depois a seguir às primeiras eleições legislativas, o primeiro Governo Constitucional também foi um governo do Partido Socialista E não é por acaso que isso acontece. Curiosamente, o primeiro Presidente da República não militar também foi o Soares.

O combate contra a unicidade sindical foi um combate decisivo, foi o Zenha que o lançou no início de 75. Aí tem um exemplo do que era aquela deriva… queriam dizer que sindicato é só um e que é a CGTP. Tudo isso foram coisas muito significativas. Por um lado, os apoios internacionais das forças democráticas e socialistas à maioria dos primeiros ministros no imediato pós 25 de Abril. O Olof Palm, o Helmut Schmidt, o Willy Brandt, que já não era chanceler, o [François] Mitterrand, o austríaco [Bruno] Kreisky, os trabalhistas ingleses… São tudo tipos que ajudaram muito e isso consolidou [a democracia] até no plano económico.
 
Dos acontecimentos que teve a oportunidade de presenciar nestes 50 anos quais foram aqueles que mais o marcaram ou que gostaria de destacar?

Primeiro o 25 de Abril. Continua a ser o dia mais feliz da minha vida. Já fui pai de cinco filhos e assisti aos partos todos e são dias muito felizes e tenho tido outras alegrias – também já tive tristezas várias – mas o 25 de Abril é um dia absolutamente inesquecível, que espero que fique até ao fim como um dos dias mais felizes.
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A eleição do meu pai como Presidente da República também acho que foi uma coisa justíssima em relação ao PS e em relação ao país. Apesar de tudo, digamos que a história o acabou por reconhecer, não é?! Ele tinha tido uma experiência muito longa, ele e o Zenha viveram um bocado mais tempo em ditadura do que em democracia. No plano político, os comícios da Alameda… foram grandes momentos.
 
Quem foram/são para si as maiores referências ou as referências fundamentais do PS, que mais o influenciaram ou inspiraram?

Os meus pais, evidentemente. A minha mãe, aliás, era a única mulher presente no momento da fundação do PS e falou. E votou contra a orientação do meu pai, que era quem tinha razão, sejamos sinceros. Chamam-me João Soares, mas eu digo sempre que sou o “João Barroso Soares”.

O Zenha indiscutivelmente. O [Raul] Rego, o Caetano de Meneses, os dois irmãos Cal Brandão, o António Macedo, que foi o primeiro presidente do Partido.
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Quais as questões mais desafiantes que se colocam ao presente e ao futuro do PS?

O PS tem de estar à altura dos desafios que se nos colocam e os desafios são múltiplos. Têm que ver com as grandes questões que se colocam às sociedades contemporâneas. Passam, em primeiro lugar, por sermos capazes de existir, isto é, no sentido de refletir, construir, readaptar aquilo que são os valores fundamentais da social-democracia – que no fundo são os valores que herdamos da Revolução Francesa, que têm que ver com aqueles três princípios fundamentais da liberdade, da igualdade e da solidariedade – aos tempos contemporâneos, que não são fáceis. Isto não é discurso de velho! Não é dizer que no tempo anterior era melhor porque nós conhecemos, sobretudo na segunda metade do século XX, os piores momentos de sempre da História da Humanidade, com  o Gulag e o estalinismo de um lado e, do outro, o nazismo e o Hitler e os e os campos de concentração. E nalguma medida estamos a assistir a fenómenos que invocam e evocam essa memória. A Alemanha era, no limiar dos anos 30, um dos países mais avançados da Europa, com os melhores arquitetos, os melhores cineastas, os melhores intelectuais, os melhores filósofos eram alemães, e isso não impediu que em menos de dez anos assistíssemos à derrocada a que assistimos e a uma das coisas mais bárbaras que conhecemos na Europa e no mundo. Quando vemos estes novos desafios com que estamos a lidar, e mal, que têm que ver com as questões de natureza ambiental, numa primeira perspetiva, depois têm que ver com desenvolvimento do mundo... Não é uma brincadeira saber que ainda ontem e anteontem [16 e 17 de setembro] chegaram em condições absolutamente miseráveis a Lampedusa, uma pequena ilha ao sul da Sicília, 15 mil pessoas e que já vão em cento e tal mil pessoas que chegaram só a Lampedusa há relativamente pouco tempo e a Europa ainda não tem uma resposta capaz para isto. Vai lá a senhora Presidente da Comissão [Europeia], vai lá a Primeira-Ministra de Itália, mas não têm resposta. A Europa como um conjunto tem de ter uma resposta às questões que têm que ver com a imigração. Já nem estou a falar da emigração que resulta da guerra, porque só a agressão e a invasão russa da Ucrânia já deu origem a mais de um milhão de refugiados ucranianos espalhados pela Europa. Isto são coisas para as quais a social-democracia tem de ter, como sempre teve nos grandes momentos da História da Europa, uma das bandeiras mais visíveis.
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“Eu nunca fui comunista, pelo contrário, mas reconheço que os partidos comunistas tiveram, e deviam ter na minha opinião, um papel importante nas várias sociedades contemporâneas, nomeadamente na Europa.”

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O socialismo e a social-democracia são história ou resposta para o futuro?
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Eu continuo a pensar que a social-democracia é a resposta. Também temos que conhecer a História e temos que conhecer a evolução recente. Houve casos onde a social-democracia teve um peso muito significativo e soçobrou por completo. A França é um bom exemplo. A França foi para a minha geração e para a geração anterior, a geração dos meus pais, e mesmo nalgumas gerações que nos sucederam, uma referência em termos de social-democracia, desde o Léon Blum, da Frente Popular, etc., são as grandes referências europeias, da mesma forma que o foi o trabalhismo britânico e a social-democracia alemã. Mas a social-democracia em França e o Partido Socialista soçobrou por completo e não tem hoje o peso que tinha obrigação de ter e é preciso ter consciência de como é que essa evolução se fez. A Itália, ainda antes da França, também tinha assistido a um colapso completo do socialismo-democrático e do Partido Socialista Tem, aliás, algumas semelhanças com o que se passou com os partidos comunistas. Eu nunca fui comunista, pelo contrário, mas reconheço que os partidos comunistas tiveram, e deviam ter na minha opinião, um papel importante nas várias sociedades contemporâneas, nomeadamente na Europa. E vamos sentir a falta deles, nomeadamente quando deixarem de ter, no nosso caso português, o controlo que foram tendo sobre o movimento sindical. No dia em que o PC não pesar na CGTP vamos ter coletes amarelos, vamos ter sindicatos do Chega, vamos ter aquelas coisas pseudoesquerdistas do STOP e vamos ter uma coisa que tende para o caos do ponto de vista sindical. Agora, isso ainda nos obriga mais, a nós socialistas e aos social-democratas que somos, a termos uma resposta capaz e, sobretudo, um discurso que seja entendível.
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“Há uma necessidade cada vez mais premente da linha social-democrata. É preciso é que quem a protagoniza, ao nível partidário e ao nível da presença no universo intelectual e no universo mediático […] tenha capacidade de dar a volta à situação.” 

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Há poucas semanas, na Academia do PS, o Presidente do Partido, Carlos César, disse uma coisa importante, e acho que foi dita no momento certo, que é o facto de nós não nos podermos convencer que podemos governar o país sozinhos e que toda a gente tem de estar de acordo connosco. Temos de ser capazes de ouvir os outros e temos que ser capazes, sobretudo, de ter um discurso que esteja de acordo com as nossas convicções, mas que atraia a malta jovem que está muito ressabiada em relação a tudo o que é o sistema político.

Portanto, há uma necessidade cada vez mais premente da linha social-democrata. É preciso é que quem a protagoniza, ao nível partidário e ao nível da presença no universo intelectual e no universo mediático, que é hoje muito difuso, porque não se limita aos grandes meios de comunicação social ou cada vez menos se restringe aos grandes meios de comunicação social, tenha capacidade de dar a volta à situação. ​
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João Soares em frente ao Quartel do Carmo
no dia 25 de Abril de 1974.
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Foto cedida pelo próprio.
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​número 04 // novembro 2023
no. 04 // novembro 2023
Entrevista
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FUNDAÇÃO RES PUBLICA
A Fundação Res Publica é uma instituição dedicada ao pensamento político e às políticas públicas. À luz dos seus estatutos, inspira-se nos valores e princípios da liberdade, da igualdade, da justiça, da fraternidade, da dignidade e dos direitos humanos.


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